sábado, 3 de dezembro de 2016

Crítica: ELIS



ELIS
por Joba Tridente

Que o Brasil tem grandes nomes das artes, inclusive de alcance mundial, que merecem uma bela cinebiografia, não resta a menor dúvida. Já foram parar na telona músicos como Cazuza, Gonzagão e Gonzaguinha (em De pai pra filho), Tim Maia... Mas não é uma tarefa fácil agradar a todos os públicos, principalmente aos fãs (fé cega).

Há sempre quem ache que um filme biográfico mostra mais ou menos fatos do que deveria. Uns preferem a (cine)biografia incluindo todos os “erros” (pra mostrar que o artista não era santo) e “acertos” (pra mostrar que o sujeito não era néscio). Outros, adeptos da hagiografia, acreditam que falar de problemas familiares, sociais, envolvimento com drogas etc..., denigre a imagem de quem “só trouxe alegria” para o povo, enquanto vivo. Digo “enquanto vivo”, porque raramente se faz algum filme sobre um “astro” em plena atividade (que pode contestar informações, principalmente sensacionalista e de caráter “íntimo e pessoal”!).

Hoje em dia (?), na exposição do cinebiografado, o cinema privilegia mais o recorte de apelo “comercial”, o roteiro simplificado que “vai direto ao assunto” (conhecido!), com seleção de fases e abordagem de impacto dramático, numa narrativa nem sempre linear ou tradicional (começo/meio/fim)..., por vezes preterindo a inventividade em favor da comoção.


Elis, cinebiografia da cantora e intérprete Elis Regina (1945-1982), dirigida por Hugo Prata, também roteirista ao lado de Luiz Bolognesi e Vera Egito, conta e canta muito, mas não conta e nem canta tudo da vida-gangorra desta artista brasileira. O drama musicado, que vai de 1964, quando Elis (Andreia Horta, divina) chega ao Rio de Janeiro, vindo de Porto Alegre (RS), aos 18 anos, até a sua morte, aos 36, em São Paulo, no ano de 1982, apresenta algumas fases/cenas da sua intensa vida artística (boates, estúdios, festivais, teatros, tv), vida amorosa (Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano) e vida familiar (filhos: João Marcelo Bôscoli, Pedro Camargo Mariano, Maria Rita). Como há muito assunto para pouco tempo..., nem tudo recebe a atenção merecida. Se algumas cenas são dignas de nota, outras são tão supérfluas que não fariam a menor falta. E olha que ficou muito mais coisa interessante de fora do que as que estão dentro da “fita”.


Embora tenha vivido em uma época bem menos expositiva que hoje, Elis era uma personalidade muito crítica. Assim como as fortes opiniões, os seus envolvimentos românticos e ou profissionais (bem ou mal) repercutiam nos veículos de comunicação. Nesse sentido, ao dar ênfase aos casamentos e desquites com o empresário e produtor Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) e com o pianista César Camargo Mariano (Caco Ciocler), e ou ressaltar os ensaios de palco com Miéle (Lúcio Mauro Filho) e com o genial dançarino e cantor Lennie Dale (Júlio Andrade, ótimo), o filme pode soar mais como um álbum de fotos e fatos conhecidos.

Ainda que a composição (reconstituição de época) seja cuidadosa e por mais envolventes que sejam apresentações nos palcos e na tv, bem como relevantes as entrevistas polêmicas no Brasil e em Paris (numa performance excepcional de Horta), no todo, fica a sensação de se ver cenas soltas (boas mas fora de contexto), de capítulos aleatórios de uma história já (re)vista e lida. Será que ainda há algo sobre Elis que já não tenha sido publicado em artigos e biografias e ou mostrado em matérias televisivas?

Toda via narrativa, no entanto, há que se pensar (também?) no público que desconhece a trajetória de vida da cantora que saiu de cena há 34 anos e não está “preparado” para um turbilhão de informações (e emoções). Ainda que seja difícil saber se as novas gerações que curtem rap, funk, sertanejo, gospel etc, se interessariam em conhecer (ao menos no cinema) uma artista de mpb (música popular brasileira) que nunca ouviram falar e ou cantar. Tenho minhas dúvidas se hoje alguma rádio ainda toca as suas gravações.


Enfim, Elis (2016) é um bom drama ou, no mínimo, acima da média. Nem vai com tanta sede ao pote das belas canções quase esquecidas e nem deixa a plateia morrer de sede por não ouvir alguns sucessos emblemáticos (se são ou não os hits preferidos de cada um, aí é outra história). É provável que a trama alcance o velho e saudoso espectador mais pela impressionante atuação de Andreia Horta, perfeita na dublagem e nos trejeitos de Elis, do que pelo resumo de uma vida tão intensa, numa narrativa, digamos, por vezes rasa: quase nula ao falar da relação da artista com as drogas e excessiva, ao tratar da sua vida amorosa. Amizades e parcerias musicais (Gil, Caetano, Chico, Tom, Rita Lee) foram "esquecidas", mas, prioridades (dos roteiristas) são prioridades (do diretor) e cortes ou recortes (imagens fugazes) fazem parte da meta que se quer alcançar. Se relevantes ou não os fatos selecionados, o público e fã da “pimentinha” (como era conhecida por conta do seu gênio forte) é que poderá responder (com bilheteria?).

Pode ser que este filme (também) vire minissérie da tv Globo..., assim como De Pai Para Filho (em 2013), de Breno Silveira e Tim Maia (em 2015), de Mauro Lima..., e, aí, quem sabe, o material (re)surja bem mais rico!


Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35 mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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