quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Crítica: A Grande Muralha


A Grande Muralha
por Joba Tridente

Pense em um espetáculo realmente grandioso. Pense em efeitos visuais muito mais que especiais, daqueles de cair o queixo. Pense num 3D-IMAX imersivo! Pense num cenário gigantesco ocupado por uma imensa força militar em perfeita sincronia de gestos e cores vibrantes. Pense em parafernália e pirotecnia bélicas usadas com inteligência para combater inimigos visíveis e invisíveis. Pensou? Então, é isso e muito mais que você vai encontrar no divertido entretenimento cinematográfico A Grande Muralha (The Great Wall, China/EUA, 2017), do mestre chinês Yimou Zhang*.


Com base em um roteiro funcional, escrito por seis autores americanos e que ganha em esplendor oriental no olhar habilidoso de Zhang, a boa trama de A Grande Muralha busca dar veracidade a uma “remota lenda chinesa”, que mistura fantasia e ficção científica para desvelar um desconhecido motivo da construção do gigantesco muro: “conta-se” que, na Dinastia Song (960-1279), o maior perigo a rondar o Império Chinês não era o da invasão de tribos nômades da Mongólia e da Manchúria, mas o ataque de uma tribo reptiliana extraterrestre, com milhares de ferozes indivíduos conhecidos como Taoties, que chegou a Terra em um meteoro. A causa que trouxe estes seres inteligentes ao planeta, mais precisamente à China, e cujo comportamento acaba se tornando um ciclo vicioso, eu não vou contar, mas adianto que tem nada a ver com o que motivou a invasão dos também ferozes Orcs de Warcraft.


Bem, continuando e ou começando a divertida e curiosa história de ação desenfreada e aventura heroica..., após uma jornada conflituosa pelo inóspito território chinês, o intrépido arqueiro holandês William (Matt Damon) e o espanhol Tovar (Pedro Pascal), dois sobreviventes de um grupo de mercenários em busca do famoso “pó preto” (pólvora), dão de cara com a Grande Muralha da China, que abriga um magnífico contingente militar denominado Ordem Sem Nome. À frente do fabuloso exército estão o General Shao (Zhang Hanyu), o Estrategista Wang (Andy Lau) e a belíssima Comandante Lin (Jing Tian). Logo a dupla fica sabendo que aqueles soldados, muito bem vestidos e equipados, não estão lá pra enfeitar a muralha, mas para barrar a entrada de um inimigo devastador que ataca a cada sessenta anos e não deixa mortos (nem mesmo os seus) para trás. Nem precisa dizer que, enquanto tramam um jeito de roubar a pólvora e dar o fora dali, os dois soldados de aluguel vão lutar na batalha insana quando o bicho pegar.

No entanto, fique tranquilo (a), ao contrário do que algum cartaz possa sugerir e até equivocar alguns críticos, o homem branco William (Damon) luta e muito, mas não chega a ser exatamente o salvador branco do reluzente Império Chinês. O certo é que a presença do ator americano deve ajudar na bilheteria. Quando se trata também de cinema, os chineses só estão usando a mesma regra (ou seria truque?) marqueteira hollywoodiana, que coloca personagens latinos, europeus e (recentemente) chineses para impor suas produções, com expectativa de maior lucro, em outros países. O filme poderia ser estrelado só por chineses? Com toda certeza! E sem perda de qualidade! Mas aí, como você iria saber que nesse período em que o "branco" europeu rondava o Império, à caça de pólvora, os chineses já tinham inventado também a bússola? Business to Business!


O enredo de A Grande Muralha é simples e direto (embate entre humanos e répteis alienígenas), mas não deixa de sair mordiscando doído nas beiradas da ganância, do poder, da estratégia, da demografia, do expansionismo que escraviza o homem (lobo do homem) imperial (ou seria ornamental?). Toda via da história que corre ligeira e envolvente, no entanto, quem não curte ou não está nem aí para um subtexto num programa pipoca-refri, pode deixar a metáfora de lado e se deleitar à vontade com a estética espetacular das batalhas (também acrobáticas).


Nenhum ataque e ou contra-ataque se repete no desenvolvimento ágil da original história. Há sempre um novo deslumbramento visual a ser apreciado. Há sempre um enfoque cultural, político ou filosófico a ser ponderado na trama. Yimou Zhang é sem dúvida um dos mais inventivos diretores chineses. É invejável como lida com cores, perspectivas, movimento aéreo de (qualquer) coisa, figurino, enquadramentos, principalmente em sequências de suspense em campo aberto..., sempre antológicas e apresentando coreografias inusitadas meticulosamente realizadas pelas personagens e seus objetos de cena.


A Grande Muralha tem um desenho de produção excelente, principalmente o dos Taoties que, tanto na forma quanto no conteúdo, possivelmente foram inspirados no mítico Taotie, tema zoomórfico que representa a gula e a ganância (encontrado em vasos de bronze de até 3000 a.C.) e aparece esculpido numa parede da Muralha cenográfica, conforme foto de cena acima. Na internet é possível encontrar diversificado material (texto e imagem) sobre esse interessante ser autofágico da mitologia chinesa..., um demônio que foi se comendo até restar apenas a cabeça. Lembra que falei de metáforas? Então, talvez o enredo não seja tão simplório quanto parece.


Enfim, considerando a plasticidade; a narrativa fluida; os diálogos em mandarim e inglês; o elenco bacana, lá e cá do oriente; grandes sequências, como a do ritual dos balões em homenagem a um oficial morto; o humor leve; o subtexto (intencional ou não) crítico; o misticismo da lenda breve e muito bem contada..., A Grande Muralha é um entretenimento genuíno e que fica ainda melhor se o espectador se desconectar da realidade e embarcar na fascinante onda bélica chinesa e ou na apavorante onda alienígena. Bom demais!

* Alguns diretores realmente dispensam maiores apresentações: Sorgo Vermelho (1987); Lanternas Vermelhas (1991); Nenhum a Menos (1999); Herói (2002); O Clã das Adagas Voadoras (2004); A Maldição da Flor Dourada (2006); Flores do Oriente (2011).


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.
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