terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crítica: Manchester à Beira-Mar


Manchester à Beira-Mar
por Joba Tridente.

A dor é um sentimento impossível de ser compartilhado. Pode-se até (tentar) compreender o sofrimento alheio, mas jamais senti-lo na própria pele. Porque a dor física ou espiritual que fragiliza o corpo e corrói a alma é única. Indissociável! Ainda que em algum momento esta seja em comum, ela será diferenciada..., porque cada um é universo único de emoções e apegos. Pois somos seres idiossincrásicos! Ou como escreveu o jornalista, escritor TT Catalão: “..., cada um cada vez mais cada um”.

No cinema, muitas produções já exploraram o tema (dor, culpa, trauma, remorso) com relativo sucesso. A maioria piegas, escapista, ocupada mais com o entretenimento edificante de resgate e redenção (familiar) do personagem sofredor em sua jornada do herói..., moldada ao gosto popular do melodrama divã-terapêutico.


Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea, EUA, 2016) foge à regra-clichê do gênero. Escrito e dirigido com maestria por Kenneth Lonergan, o belíssimo drama gira em torno de Lee Chandler (Casey Affleck, soberbo!), um zelador de prédio (faz-tudo!) que vive sozinho em Quincy, no Massachusetts, EUA. É um sujeito introspectivo, de frases curtas. Antissociável, nem sempre consegue evitar mal-entendidos com condôminos (irritantes) e ou fregueses de algum bar. 

Quando seu irmão Joe (Kyle Chandler) sofre um infarto fulminante e ele retorna à Manchester-by-the-Sea, a sua cidade natal, é que o espectador vai compreender a razão de tanta amargura e o porquê dele não suportar a ideia de voltar a morar ali, como tutor do sobrinho adolescente Patrick (Lucas Hedges). Naquele lugar, onde os moradores parecem lhe apontar o dedo acusador, é que o público conhecerá, através de flashbacks (numa edição extraordinária), o seu trauma incomensurável, a razão da dor que ainda drena seus sentimentos e embaça os seus atos e sentidos. Um tormento fortemente delineado na (já) antológica sequência do encontro casual (e catártico) com a sua ex-mulher Randi (Michele Williams, inspiradíssima).


Em 2h17 de profunda reflexão sobre a dor humana, Manchester à Beira-Mar prova que nem todo cinema é (ou precisa ser) movido à pipoca, refrigerante e celular para alcançar o “eu” do espectador. A perspicácia do seu enredo, os diálogos e a naturalidade expressiva do elenco arrebatam o espectador porque são críveis. Não há estereótipos e nem gratuidades. Nesse melancólico conto (com leves toques de humor juvenil) os personagens sentem e agem como (se fossem?) pessoas reais.


Casey Afleck impressiona com sua perturbadora performance de Lee. A sensação de desconforto que seu personagem causa ao espectador é a mesma causada aos personagens com quem interage. Não há personagem e nem cena alguma fora de ordem. Tudo o que se vê tem a sua razão na tela, principalmente o fio condutor (paralelo) do flashback. Da fascinante direção de arte de Jourdan Henderson à clássica trilha sonora de Lesley Barber (que serve de diálogo tocante entre personagem e plateia e ou de inesperado monólogo), emolduradas pela fotografia gélida (de tristeza significativa) de Jody Lee Lipes..., cada cena é meticulosamente trabalhada por Lonergan para o “desconforto” providencial do público.


Enfim, considerando que a imersão numa narrativa que lida com algo tão complexo, de forma (aparentemente) tão simples e delicada, é uma experiência sensorial única; que a excelência do elenco exala a química perfeita; que os prêmios que possa vir a receber: direção e roteiro (Kenneth Lonergan), protagonista (Casey Afleck), coadjuvante (Michele Williams) etc, são merecidíssimos..., o magnífico Manchester à Beira-Mar, com toda crueza de seus personagens e ritmo diferenciado, é daqueles filmes para se ver e rever em toda e qualquer oportunidade e com a certeza da mesma emoção à flor da pele...

NOTA: Não queira saber mais que isso. Não veja nem mesmo o trailer. Essas informações (acima) são suficientes para imersão total (sem prejuízo de spoiler) nessa pungente obra-prima! Não esqueça de levar um lenço, mesmo descartável, porque você pode precisar!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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