quinta-feira, 23 de março de 2017

Crítica: Fragmentado

Fragmentado
por Joba Tridente

Fazer cinema pode ser como dirigir um trem desgovernado..., se o condutor conhece bem a estrada-de-ferro e seus desvios, pode salvar o dia, se não, o desastre é certo e não sobrará vagão para contar a história. O controverso roteirista e diretor M. Night Shyamalan é um maquinista que, quando assume a cabine cinematográfica de um trem, nem sempre é unanimidade entre os passageiros mais críticos das suas paradas crônicas no mundo do entretenimento, onde a tela é ocupada por narrativas que exaltam a fantasia, a fábula, o suspense e ou o horror..., tudo dentro do palatável.

M. Night Shyamalan que, em 1999, chegou atropelando Hollywood com seu expressivo Sexto Sentido, continuou embalado com Corpo Fechado (2000), seguiu a toda atento a Sinais (2004), chegando com bom combustível à estação A Vila (2004) e energia suficiente para não deixar para trás A Dama na Água (2006)..., encontrou um desvio inesperado e se perdeu com o Fim dos Tempos (2008), tentou sem sucesso outros trilhos com O Último Mestre do Ar (2010) e sumiu na cerração Depois da Terra (2013), para só reaparecer recauchutado em A Visita (2015). Agora, um tanto Fragmentado (2017), reabastece a máquina, bem ocupada com velhos e novos passageiros cinéfilos, para uma jornada nada confortável.


Fragmentado (Split, 2017), escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, é um thriller que nos convida a embarcar numa viagem imersiva no universo distorcido de Kevin (James McAvoy), cujo corpo/mente abriga 23 personalidades distintas e uma nova e devastadora a caminho. Kevin sofre de Transtorno de Identidade Dissociativa - TID e, além dele, o espectador conhecerá apenas cinco de suas manifestações: Dennis (obsessivo-compulsivo), Patrícia (mulher dissimulada), Barry (estilista despretensioso), Hedwick (garoto de nove anos) e a Besta (assombrosa).

Personagens traumatizados (física, psicológica e espiritualmente) são, de certo modo, recorrentes na obra fabular de Shyamalan. Toda via expressa da insinuação do horror alegórico, no entanto, seus tormentos andam ganhando ares cada vez mais explícitos em narrativas que (ainda) não chegam a gotejar gore, pois se pressupõe farsa no diálogo e ou no monólogo que antecipa o jogo de cena de quem o protagoniza (ou antagoniza).


Fragmentado começa com o sequestro de três adolescentes: Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy), logo após uma festa de aniversário. As garotas acordam aprisionadas num claustrofóbico bunker, onde recebem visitas perturbadoras e ameaçadoras dos alter egos de Kevin, que tem uma relação “familiar” (no fio da navalha) com a psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Buckley), autoridade em TDI, mas com uma visão um tanto ingênua quanto às múltiplas personalidades de seu paciente. Ali, enquanto as desesperadas Claire e Marcia, através do enfrentamento e do medo, buscam uma forma (simplista) de escapar, Casey estuda meticulosamente as particularidades de cada inimigo manifesto, para não falhar a fuga. Das três, somente ela tem antecedentes (visto em flashbacks) que justificam a sua introspecção e tal reação diante do perigo iminente. Porém, o trio sabe que não será fácil dominar qualquer uma das “facetas” do múltiplo Kevin.  


A trama basicamente “discorre” sobre o presente de Kevin (com seus eus) e sobre o passado de Casey (com seus ais). Os dois carregam um fardo de abuso e de submissão psicológica como se carregassem os pecados da humanidade. Na catarse (tardia) de ambos, a porta da “expiação” pode tanto aprisionar quanto libertar suas almas. A discussão dos seus traumas pode não ser lá muito profunda, mas (implícita!) é bem mais convincente que a rasura das duas garotas “de bom coração” (Claire e Marcia) e mesmo da psiquiatra (Fletcher), que se ocupa mais com a harmonia de Kevin com suas facetas do que com a segurança da sociedade em que está inserido. Aliás, de Kevin, o público só vai conhecer a sua atividade profissional no epílogo, já que, segundo o roteiro, ele e seus 23 egos, seriam influenciados pelo ambiente de trabalho.

Embora o seu roteiro, com vícios de linguagem, não seja dos mais originais (sequestro de adolescentes, prisão subterrânea, desnudamento, psicopatias), ainda assim o drama (com algum humor cinzento) é capaz de surpreender o espectador e prender a sua atenção até o “desfecho” que o fará rever toda a narrativa em segundos, para resgatar duas sequências e dizer: “Ah, esta é a razão do off!” e “Ah, esta é a razão do trem/metrô!”. Aqui eu pergunto, mesmo sabendo a resposta (que tem nada a ver com a do filme): “Por que será que vilões (inclusive alienígenas) adoram uma performance (desastrada) num trem e ou metrô?. Quanto à resposta ao suspense shyamalaniano, ela poderá ser vista numa provável continuação dois em um: Corpo Fechado e Fragmentado 2 (Unbreakable and Split - 2)...


Enfim, considerando a razoabilidade do tema (TDI) e a curiosidade do enredo; algumas sequências muito bem resolvidas, como a do sequestro das adolescentes e a do quarto de Hedwick; as excelentes atuações de James McAvoy (Kevin) e de Anya Taylor-Joy (Casey); a alternância entre a meia-luz (prisão) e a claridade (clínica), redefinindo personagens e refletindo a complexidade da natureza humana; as alegorias nem sempre funcionais..., descartando um ou outro escorregão, Fragmentado é um bom programa. Recomendo para que gosta de pensar (sobre cordialidade) fora da caixinha e além do divã.

Pode não ser o melhor filme de M. Night Shyamalan, mas prova que o interessante diretor ainda tem muito combustível para impulsionar sua locomotiva Hollywood afora.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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