Final de ano sem um inspirador melodrama cinematográfico
(edificante), baseado em fatos reais (sempre) envolvendo estadunidenses
superando (seus) limites físicos e mentais, a serviço da união e do amor em família...,
não é fim de ano hollywoodiano. Mas, será que nessa Árvore de Natal, enfeitada
com lágrimas brilhantes, corações abertos e risos de satisfação, há espaço para
um enfeite estrangeiro, digamos, espanhol?
Parece que sim! Apostando na emoção sem limites,
estreia O Impossível (Lo imposible, Espanha, 2012),
filme-catástrofe hiper-realista, dirigido por Juan Antonio Bayona (O
Orfanato), que tem como pano de fundo o tsunami que devastou a costa
asiática no dia 26 de dezembro de 2004. Baseado na história real da família
espanhola Belón, que virou a britânica Bennet
(marketing?)..., o drama acompanha os dias de terror vividos pelo casal Maria (Naomi Watts) e Henry Bennet (Ewan McGregor), e seus três filhos: Lucas (Tom Holland), de doze
anos, Thomas (Samuel Joslin) de sete e Simon
(Oaklee Pendergast) de cinco, que
passavam férias em Khao Lak e foram gravemente feridos e separados pelo acidente
natural que atingiu a paradisíaca Tailândia.
O roteiro de Sergio G. Sánchez é seco, sem
subtramas, vai direto ao nervo para contar a luta pela sobrevivência e reunião
dessa família vitimada pelo devastador tsunami, que deixou cerca de 300 mil
mortos. Uma família comum (entre muitas) que, durante o sinistro, não se
distinguia muito de qualquer outra (local ou turista) sobrevivente, mas que protagonizou
uma história “tão inacreditável que a
gente não acredita” ser possível. O elenco se entrega com paixão (e dor!)
aos seus papéis. Falar o quê da excelência de Watts e McGregor? É mais fácil
elogiar a ótima estreia do expressivo Tom Holland e o cativante trabalho dos
pequenos Samuel e Oaklee, que, com a naturalidade de qualquer criança, põe a
reboque os grandes.
Bayona é preciso na direção de atores e de ação.
A impressão é a de que, em se tratando de efeitos e cenografia, evita o exagero...,
lhe interessa o essencial, o natural. Aí, o menos se torna muito mais e o que
se vê na tela é apenas o que a vista alcança na vida real. O tsunami dura aproximadamente
10 minutos, mas o realismo das imagens é tão intenso e apavorante que parece infindável.
Não há exploração gratuita do sofrimento dos sobreviventes desnorteados, apenas
o seu registro. Nem mesmo a catástrofe vira espetáculo. Algumas das cenas mais aflitivas,
vividas por Maria (Watts) e Lucas (Holland), são de uma delicadeza
arrebatadora.
O
Impossível não é totalmente isento de clichê. Tem uns dois sutis
(válvula de escape?) dispensáveis e uma sequência inicial, no mínimo, estranha (ou
fora de contexto!) em que o mar é mostrado como uma entidade maligna (?) à espreita
dos incautos turistas na praia, na iminência do seu ataque. Realmente não consegui
entender a “metáfora” do “mar monstro”, segundo o diretor e o roteirista. A exagerada
trilha chorosa, digo, sonora, de Fernando Velázquez, irrita (!) nos momentos “chora
coração!”.
Quem assistiu a docs e ou telefilmes na época,
ou mesmo posteriormente, no cinema, ao Além da Vida (2011), de Clint Eastwood e ou o sul-coreano Tsunami, A Fúria do Oceano (2009), vai encontrar alguns pontos em
comum, principalmente na reconstituição da avassaladora onda de 98 metros de
altura. O bilhete deixado pela mulher de um sobrevivente, inclusive, apareceu
em muitos telejornais, emocionando telespectadores em todo o mundo. Todavia,
essas observações (muito pessoais) não chegam a sequer arranhar esta produção
espanhola com padrão comparável ao melhor do gênero americano.
O
Impossível é visceral e não recomendado para quem tem estômago
delicado e ou para quem gosta de se empanturrar de pipoca e refri. A narrativa
é incômoda (ferimentos expostos, precariedade hospitalar) e, cá pra nós, é preciso
ser muito sádico (ou estar faminto) para apreciar um lanchinho diante da
desgraceira generalizada que se vê na telona. Enfim, cada um sabe do seu
estômago. Ah, é aconselhável não esquecer o lenço (mesmo de papel). Nunca se
sabe se vai ser útil para as lágrimas e ou...
