Por mais que se deseje eterno, o amor vagueia
transitivo mesmo nas (in)conveniências. Por mais que se deseje terno, o amor
estanca intransigente nas relações afetivas. Quando o “ter” sufoca o “ser”, o
verbo não pode mais ser conjugado. Na vida (e na arte) o amor parece fadado a ser
objeto para toda digressão do outrora estabelecido e do que se quer rotina.
Flores
Raras (Brasil, 2013), dirigido por Bruno Barreto, é um bonito drama sobre o amor entre duas mulheres e
sobre a paixão e o rigor delas pelo trabalho: Lota de Macedo Soares (1910-1967), urbanista e paisagista
brasileira, e Elizabeth Bishop
(1911-1979), poeta norte-americana vencedora do Pulitzer e do International
Neustadt Prize for Literature. O palco maior do conturbado romance é o Rio
de Janeiro dos anos 1950 (da bossa) aos 1960 (da mpb), onde, em meio à efervescência
cultural e política, Lota planeja espaços
públicos e Elizabeth versos
intimistas. Entre elas a paisagem como fonte de inspiração de parques e poemas.
Entre elas a paisagem (re)virando (a) prosa.
Apoiados no livro Flores Raras e Banalíssimas - A História de Lota de M. Soares e
Elizabeth Bishop, de Carmen Lucia Oliveira, os roteiristas Matthew Chapman,
Julie Sayres e Carolina Kotscho trazem a foco não apenas os percalços de uma
vida a duas, mas também a três, já que Lota
(Glória Pires) e Bishop (Miranda Otto), ao que se vê, “compartilharam” a incômoda presença
da frustrada Mary Morse (Tracy Middendorff), ex-namorada de
ambas e de quem Lota não conseguia se
separar. O que dá à trama ares patéticos.
Apesar de intenso, Flores Raras não é um filme intrusivo. A direção elegante de Barreto,
com seus deliciosos floreios sensuais, arrebata até os mais distraídos ao tema
complicado pela sociedade e seus valores machofalocratas. Até mesmo ao tangenciar
a efervescência cultural e política, o diretor o faz moderadamente e sem ranço
ideológico. Mesmo porque não há razão para
ater-se em demasia aos rumos do modernismo ou do governo de Carlos Lacerda (Marcelo Airoldi) e do golpe de 1964, quando o assunto de interesse
é outro, não menos tenso (ciúme e possessividade) ou escandaloso (em família).
O que não quer dizer que Flores Raras seja vago em sua síntese biográfica. Com seus diálogos
afiados (Lota: É inconcebível alguém
colocar a amizade à frente do amor.) e abrangentes (Elizabeth: Nunca me senti uma exilada, mas também nunca
me senti exatamente em casa.) ele vai além do que se espera e desvela mais
do que se imagina sobre as mazelas do amor e do poder. Por vezes um filme poético,
mais para se ouvir do que para se ver, na interpretação impecável do trio
protagonista, com destaque para a linda Miranda Otto. Por vezes um filme
imagético, mais para se ver do que para se ouvir sobre os opostos (vinho e uísque,
sol e lua, yang e yin) que se atraem ou se atracam com convicção, muito bem
emoldurado pela bela fotografia de Mauro Pinheiro.
Flores
Raras é uma excelente brisa nas salas de cinema tomadas pela “comédia”
chula. Um filme para o espectador que ainda não perdeu a faculdade de pensar
(por conta própria).

