quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Crítica: Meu Namorado é um Zumbi



Quando li a resenha do livro Warm Bodies, de Isaac Marion, traduzido, por aqui, como Sangue Quente, fiquei fascinado com a originalidade da ideia. Soube da versão cinematográfica e pensei, na mão certa vai dar um belo espetáculo. Não sei do livro, mas o filme, com o abominável título Meu Namorado é um Zumbi (no caso de Zumbi, cabe uma preposição) é um simpático drama (leve) muito romântico e com bom humor (SEM ESCATALOGIA!). Ainda bem! Para quê mais um filme demente de zumbi igual todos os outros filmes de zumbis dementes comedores de gente demente?

Meu Namorado é um Zumbi (Warm Bodies, EUA, 2013), com roteiro e direção do intimista Jonathan Levine, conta a estranha história de amor quase impossível, entre o morto-vivo R (Nicholas Hoult) e a viva-bela Julie (Teresa Palmer), que começou casualmente quando ambos se caçavam mortalmente. R e sua turma precisavam encontrar humanos para saciar a sua fome e Julie e seus amigos (em busca de suprimentos médicos) caçavam zumbis que cruzassem o seu caminho, para evitar que mais vivos-vivos fossem mortos e ou transformados em mortos-vivos (ou vivos-mais-ou-menos-mortos ou mortos-mais-ou-menos-vivos). R se apaixonou por Julie à primeira vista. Quanto à Julie, ela não tinha muita certeza dos seus sentimentos até que...


Narrado na primeira pessoa, pelo melancólico R, que sequer lembra o seu nome ou o que o fez virar um zumbi e muito menos o que o faz tão diferente dos seus amigos de gênero, o drama favorece diversas leituras sobre o universo adolescente. A metáfora pode estar na alienação juvenil, na busca de identidade num mundo tão igual, povoado por diferentes e diferenças sociais e raciais. A alegoria da fome pode ir além do gesto antropofágico, do ato de se apossar e regurgitar a memória alheia em detrimento da pessoa ressignificada (ou seria resignada?). O prazer visual (e intelectual) pode estar apenas na leitura de uma boa (ou velha) história romântica bem contada, com seus curiosos diálogos subliminares.

O ser e o não-ser habitam os corpos da bela Julie e da fera R que ignoram as regras naturais do amor e ao negá-las se transformam e também aqueles ao seu redor. Corpos quentes (warm bodies) dimensionam o desejo além da carne e da preservação da espécie. Um corpo quente é o passaporte para se resgatar do limbo a dignidade obstruída pela indiferença. Confesso que me espantei ter lido isso tudo em Meu Namorado é um Zumbi. Não acredito ser uma leitura fácil para aquele público que entra na sala já com uma ideia formada a respeito do que quer saborear da trama. A decepção com a ausência de carnificina ou do tipo sanguinolento padrão de zumbi vai ser proporcional à expectativa. O ritmo e a condução (ôps!) dos zumbis é em outra pista. Uma trilha bem escolhida evita-se muitos sustos!


O que encanta neste filme, com cara de cinema independente, é a despretensão, a simplicidade e tranquilidade em contar uma história mais apropriada à linguagem fantástica do que de terror (ou horror). Não há exageros performáticos e ou no roteiro e direção, cujo título se justifica (com muita nostalgia e poesia) no epílogo. Tudo é preciso e econômico (até nas escorregadas), pontuado por rocks e baladas saudosistas. O desenho de produção é ótimo (excetuando os esqueléticos) e também perturbador, com as sequências no aeroporto. Um bom programa para quem gosta de variar o cardápio.

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