
Raul Seixas (1945 - 1989) era o mestre da
diversificação musical. Mesmo dizendo que Raul Seixas e Raulzito sempre foram o
mesmo homem, havia algo que “os” distinguia, além da simplicidade melódica que
arrebatavam corações e mentes: a intenção da composição (ora sofisticada, ora
banal). Enquanto Raulzilto romantizava, Raul contestava, mesmo que
contraditoriamente, como em Eu Quero Mesmo: Por
muito tempo eu sentia vergonha das coisas que eu sinto/ E disfarçando, escrevia
difícil só pra complicar/ Quando a flor é uma flor e não tem outro jeito da
gente dizer/ Pra que mentir (...) Eu
quero mesmo é falar de amor! (...) Eu
tinha medo de ver a beleza da simplicidade/ Nunca falava "eu te amo"
com medo de alguém me gozar (...). O que não quer dizer que fosse uma
regra. Metamórfico, às vezes trocava um pelo outro, como se pode ouvir na boa
parceria com o músico Leno (que fez dupla com Lilian, na Jovem Guarda) em Vida e Obra de Johnny McCartney, gravado
em 1970/71, censurado na época e lançado em 1995, pela Natal Records.
Raul
Seixas é o grande nome do rock brasileiro. Ele, que dizia não ter “nada a ver com a linha evolutiva da música
popular brasileira”, sampleou a boa música estrangeira e a dele também. Desconstruiu
a música romântica (brega!) e o rock, misturou tudo com baião, xaxado, batuque
e serviu ao público o seu som raulseixista. A sua melhor definição foi dada por
Zeca Baleiro em sua deliciosa Toca Raul: Mal
eu subo no palco/ Um mala um maluco já grita de lá/ - Toca Raul!/ A vontade que
me dá é de mandar/ O cara tomar naquele lugar/ Mas aí eu paro penso e reflito/ como
é poderoso esse Raulzito/ Puxa vida esse cara é mesmo um mito (...) Em todo canto que eu vou/ Tem sempre
algum grande fã do cara/ É quase uma tara/ Jovens velhos e crianças/ Malucos e
caretas/ Parece uma seita/ Por isso eu paro penso reflito/ Como é poderoso esse
Raulzito/ Puxa vida esse cara é mesmo um mito (...).

Inconstante
no amor, o músico baiano acreditava na sua arte, mas vacilou com as drogas
lícitas e ilícitas e perdeu o chão, a identidade, o palco e a vida aos 44 anos.
Com tantas histórias, causos, folclores, intrigas, misticismo, gerando livros e
até homenagem choramingas (em 2009) por um canal aberto de TV, o quê
documentar? Em Raul - o Início, o Fim e
o Meio (Brasil, 2012), o diretor Walter
Carvalho procurou fugir do lugar comum para mostrar facetas ainda desconhecidas
do precursor do Rock Brazucada. Para tanto, entre 2009 e 2010, foi de Salvador à
Suíça, passando por São Paulo e Rio de Janeiro e EUA, ouvindo o que ex-mulheres,
filhos, amigos de infância, músicos, profissionais da área musical, parceiros,
fãs tinham a dizer e ou material inédito a mostrar. Das 94 entrevistas foram
aproveitadas 54 e as 400 horas de depoimentos e material de arquivo, após uma minuciosa
edição, resultaram num filme de 130 minutos. Pode parecer muito, mas pelo que
se vê na tela, fica um gostinho de quero mais.
Entre os
bem falantes se encontram Caetano Veloso, Tom Zé, Luiz Carlos Maciel, Bráulio
Tavares, Toninho Buda, Roberto Menescal, Sylvio Passos, entre outros. Os depoimentos
mais intensos (e excessivos?) são os das ex-esposas (Edith e Glória) e das
ex-companheiras (Kika, Lena e Tânia); o mais sarcástico (?) o de “EU” Paulo
Coelho, que diz ter iniciado Raul no mundo das drogas pesadas, e que acaba protagonizando
uma mítica e fatal cena com uma mosca suíça. Carlos Roberto, outro grande
parceiro de Raul, apesar da mesma brabeza de seus galos de rinha, desvela
alguns curiosos segredos da sua fiel amizade com o roqueiro maluco beleza. Ao
parceiro tardio Marcelo Nova sobra (o desnecessário) constrangimento de um
julgamento público, pelo simples fato de dividir o palco (e os últimos 50
shows) e o ótimo disco Panela do Diabo, com Raul Seixas (já debilitado pela
pancreatite, diabetes, drogas etc).

Raul - o Início, o Fim e o Meio não é um (perigoso!) filme de fã, já que
Carvalho só foi a um show de Raul e apenas ouvia seus discos, através dos
filhos. Um diferencial que lhe deu mais liberdade para fazer uma leitura
imparcial do astro: Ao começar, minha
única intenção era conhecer Raul Seixas. Eu não faço filme para provar nada.
Achava e continuo achando que um mito como Raul Seixas não tem explicação e nem
deve ter. Ele está no inconsciente das pessoas - o documentário pode enriquecer
a relação da multidão de fãs que ele deixou e dos que continuam a aparecer mais
de 20 anos depois de sua morte. Todavia, vale ressaltar que o doc não é um
show musical de Raul e muito menos uma coletânea de videoclipes, como muitos
fãs esperam. Mas um emocionante retrato (breve?), por vezes divertido, inquietante
e impactante, sobre a sua vida pessoal e profissional. Traz algumas cenas
fortes (sacrifício animal) e outras de uma beleza contagiante, como a do
resgate do caderno de anotações e desenhos de Raulzito que, quando criança, sonhava
em ser ator, roteirista e diretor de cinema, influenciado pelos filmes do seu
ídolo Elvis Presley. O filme Balada
Sangrenta (King Creole),
estrelado pelo Rei do Rock, inclusive, tem nostálgicas citações. Uma delas,
feita por um dentista, com certeza, vai arrepiar os amantes do cinema.
Walter Carvalho, que dividiu a direção com Evaldo
Mocarzel e Leonardo Gudel (autor do roteiro), não teve a pretensão de esgotar o
assunto sobre “o cara” do rock brasileiro. Também porque esta parece ser uma
missão impossível: Eu não queria decifrar
o mito. Cinema não é tribuna, não é para analisar, decifrar - é para sentir. O
espectador pode ter uma certeza: Raul Seixas é tudo o que está na tela - e
muito mais.

Nota: Em
1973, quando Raul Seixas lançou KRIG-HA, BANDOLO!, ganhei um LP ao participar de um concurso de
uma revista Editora Abril, se não me engano POP. Em 1974, ilustrei a música Gita,
de Raul e Paulo Coelho, e ela foi publicada na página central do Segundo
Caderno do Correio Braziliense, ilustrando a matéria Raul Seixas: contínua
metamorfose, de João José Miguel. As ilustrações estiveram a um passo de virar ilustração
também de uma edição especial sobre Raul, mas sua gravadora mudou os planos. Em
1980, um Salão de Artes Plásticas de Brasília, premiou um artista que havia
copiado e esculpido, em madeira, 14 dos meus 16 desenhos, sem me dar qualquer
crédito. Em 1989, quando Raul Seixas morreu eu estava em São Paulo, para um
seminário sobre Direito Autoral e ouvi a notícia num telejornal no saguão do
hotel. Em 2012, no lançamento do filme
em Brasília, Waldo França, um velho amigo, se lembrou dos desenhos, que ainda
tenho comigo (veja a foto da página que encontrei perdida em um arquivo), e me
falou da forte impressão que o filme lhe causou.