AMOR, SUBLIME AMOR
West Side
Story
por Joba
Tridente
Quando o espectador tem um filme de estimação e ouve
falar que será refilmado, trêmulo pergunta: “Por quê? O quê há de errado com ele? Bem, acontece que, por mais agradável
que o filme em questão seja e por mais que a sua trama continue à frente das
tramas (assemelhadas) dos filmes atuais, quando um produtor e diretor de renome
bota na cabeça que vai refazê-lo e ponto, mais hora menos hora acaba refilmando
mesmo. Então, ou dá a (sua) cara nova
à cara velha ou quebra a (sua) cara.
Ainda sem saber o que esperar, quando o diretor Steven Spielberg anunciou que iria
dirigir uma nova adaptação do clássico musical West Side Story (Amor,
Sublime Amor), muita gente ficou de orelha em pé. Passado o susto, a boa
notícia é que, mesmo com algumas mudanças
e/ou ajustes, Spielberg não deve decepcionar os seus fãs e nem os fãs da
obra cinematográfica dirigida por Robert
Wise, em 1961, e que arrebatou dez Oscars
e três Globos de Ouro. Se a nova
versão vai chegar lá..., aí é outra história.
“No soy Americana, soy puertorriqueña!”
Tendo como pano de fundo uma história de ódio e de
amor, que remete ao famoso drama Romeu
(Montéquio) e Julieta (Capuleto), de
Shakespeare, o musical Amor, Sublime
Amor executa as suas canções vociferando hostilidade, clamando cidadania e/ou
celebrando o amor em dois palcos urbanos, onde suas notas melódicas (agridoces)
irão acabar se roçando e se embaralhando num final trágico de moral tardia na
coxia bairrista em comum.
Em um cenário, o desdobramento das desavenças por
território (em vias de desapropriação) entre os brancos norte-americanos
extremistas da gangue Jets, liderada
por Riff (Mike Faist) e os irredutíveis morenos porto-riquenhos da gangue Sharks, comandados por Bernardo (David Alvarez). Em outro, o conturbado amor à primeira vista arrebatando
a romântica Maria (Rachel Zegler), irmã de Bernardo, e o sonhador Tony (Ansel Elgort), recém-saído da prisão. Tony já fez parte da turma malvada de Riff, mas agora quer sossego e uma vida melhor, trabalhando na loja
de Valentina (Rita Moreno, que mereceu o Oscar,
na pele de Anita, em 1961), que já
foi de Doc, na versão de Wise. Acontece
que o esquentado e superprotetor Bernardo,
que vive com Anita (Ariana DeBose), não quer nem pensar no
envolvimento da jovem Maria com Tony, pois já arranjou um namorado para
ela, o seu amigo Chino (Josh Andrés Rivera).

Acontece que, antes do explosivo encontro de Maria e Tony, em um baile de integração racial, as
duas gangues combinaram uma briga para resolver quem é o dono do pedaço. Agora,
com a raiva escorrendo pelos poros dos dois líderes, Riff não abre mão do pacato Tony
na luta final e Bernardo acredita ser
esta a melhor oportunidade para dar uma lição no pacífico namorado da irmã...,
que não está nem aí pros dois valentões do bairro, mas que vai acabar sendo
crucial no desfecho desta rixa. Como se sabe, o preconceito pode ter duas vias
e, no final das contas, todos os intolerantes são perdedores. Ao se ater à
ficção de Arthur Laurents e desviar o olhar para a realidade, percebe-se que, em
60 anos, pouco mudou nas terras do tio insano quanto à xenofobia, o racismo, a
violência etc...

Neste West
Side Story ou Amor, Sublime Amor
(título brasileiro) spielberguiano, a essência do argumento original está intacta
no suporte à história de rivalidades idiotas e de amores trágicos, envolvendo a
gangue xenofóbica Jets, dos
estadunidenses brancos, e a gangue Sharks,
dos imigrantes porto-riquenhos morenos, na cidade de Nova York, em 1957. No
entanto, em seu roteiro, Tony Kushner
atualizou, cortou e lapidou alguns diálogos e letras da peça de teatro musical concebida,
dirigida e coreografada por Jerome Robbins, a partir do livro de Arthur
Laurents. Ou seja, em suas “releituras”, Spielberg e Kushner procuraram acentuar
e/ou amenizar algumas passagens em que o preconceito étnico e idiomático era
mais forte. Com isso, a
envolvente música de Leonard Bernstein, com letra de Stephen Sondheim, ganha
mais intensidade, mais repercussão social e até uma irônica alegria (como na
contagiante América).

Amor, Sublime
Amor traz algumas sequências musicais encantadoras, como a de Maria e Tony, no famoso dueto romântico de Tonight, na sacada gradeada do apartamento da jovem, e a de Anita, num forte contexto social, comandando
o grupo porto-riquenho pelas calçadas e ruas do bairro na (agora) esfuziante
canção América, anteriormente
apresentada num fim de tarde no terraço do prédio onde os imigrantes moravam...,
e outras (a mim) bem enfadonhas.
O maior mérito de Spielberg na visita ao West Side Story, possivelmente, está no
elenco. Ao contrário da versão Wise..., em que, excetuando (sabe-se lá o
porquê) a branca Natalie Wood/Maria, grande
parte do elenco que representava os porto-riquenhos tinha a face pintada de
marrom (bronze envelhecido), salvando-se original no protagonismo, só Rita
Moreno/Anita..., ele escalou atores e
atrizes latinos. E mais, provoca o espectador ao manter diálogos fluindo entre
o inglês e o espanhol e sem legendas (também nos EUA). Por essa os
nacionalistas estadunidenses (que odeiam filme legendado) não esperavam.
Quanto às mudanças mais notáveis, os amantes da
versão de Wise talvez se incomodem com a
estranha caracterização da personagem Anybody
(Ezra Menas) que, de uma adolescente
moleca, nada mais que uma garota rebelde que andava no meio dos garotos
malvadões da gangue Jets, no remake vira um homem trans (?) grandalhão
e humilhado. A mudança mais assimilável, sem dúvida, é a da personagem de Rita Moreno (a Anita de Wise), que volta muito bem à cena, no papel de Valentina (a esposa de Doc), criado especialmente para ela e
com direito a interpretar a bela e melancólica Somewhere (There's a
Place For Us). É óbvio que estas mexidas só serão percebidas (e
julgadas) por quem conhece o filme de Wise, de 1961.

Enfim, ainda que divida opiniões Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg é um espetáculo com grandes
momentos musicais e coreográficos e diálogos perturbadores. Como resistir a
canções como América, Tonight e I Feel Pretty e
ou o sacolejar de Mambo? O elenco é
adequado e as interpretações são consistentes, com destaque para Ariana DeBose,
cujas cenas finais, num contraponto desconcertante à exaltação em América,
são de arrepiar: “No soy Americana, soy
puertorriqueña!”. A paleta de cores que impressiona na distinção dos
figurinos americanos (em tons frios de azul) e porto-riquenhos (em tons quentes
de vermelho, rosa, amarelo, laranja) também apavora com suas sombras estratégicas. Quanto à fotografia de Janusz
Kaminski, é ela que, aliada à notável edição de Michael Kahn e Sarah Broshar, coloca o espectador em cena e ainda o faz rodopiar,
dançar e brigar.
Trailer: Aqui
NOTA: As considerações acima são pessoais e, portanto,
podem não refletir a opinião geral dos espectadores e cinéfilos de carteirinha.
Joba
Tridente: O
primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros
videodocumentários fiz em 1990. O primeiro curta-metragem (Cortejo), em
35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e
coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e
divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro
tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder,
2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.