terça-feira, 11 de maio de 2010

Crítica: Viajo porque preciso, volto porque te amo


Viajo porque preciso, volto porque te amo

Viajo porque preciso, volto porque te amo . A frase, pintada numa parede, poderia estar no para-choque de um caminhão. Ou na letra de uma música romântica. O experimental filme de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz é uma ficção com cara de documentário com cara de ficção. Um híbrido pé na estrada, onde um acervo de fotografias, músicas, textos, cartas e anotações fazem mais que meramente ilustrar um roteiro de inesperada beleza.

Construído a partir de imagens captadas entre 1999 e 2009 (pelos diretores), através de variados tipos de câmeras (Super 8, DVCam, High 8, “snap shots”), a narrativa roda em torno de um geólogo, José Renato (Irandhir Santos), fazendo pesquisa de campo, para avaliar o possível percurso de um canal a ser construído com o desvio das águas do único rio caudaloso da região. Para tanto, terá que atravessar todo o Sertão Nordestino. A viagem solitária é longa o suficiente para José refletir sobre o seu trabalho e, principalmente, fazer declarações de amor (A única coisa que me faz feliz, nessa viagem, são as lembranças de ti) e desamor (A única coisa que me deixa triste, nessa viagem, são as lembranças de ti) a uma mulher que gostaria que estivesse à sua espera. Ele “colhe” pedras e analisa fendas. Ela “colhe” flores e é apaixonada por samambaias. Não sabemos como é seu tipo físico. Dele, só ouvimos a sua voz falando a um gravador (ou ao carona espectador), sobre tudo o que lhe parece importante: paisagens, gentes, fendas, amor, rochas, solidão, prazer..., num itinerário que parece não ter fim, rasgando regiões semidesérticas e isoladas.

Viajo porque preciso, volto porque te amo é uma viagem sensorial inesquecível, ao âmago de um homem apaixonado por uma mulher e pelo seu trabalho. Uma obra que desperta sentimentos controversos, ao provocar o olhar do comum. Pela simplicidade poética. Pela poesia musical do simples. Pelo excesso do vazio. Pelo contexto fora do contexto, quando o pré-conceito encontra distância suficiente para se desvelar. Quando Caetano Veloso gravou a música Sonhos, de Peninha, numa versão intimista, para muitos a composição desconhecida (?), que já havia sido gravada por Tim Maia e Sandra de Sá, inesperadamente deixou de ser brega. Críticos analisaram a letra e a acharam boa e também elogiaram (com gosto) outra composição (considerada) brega, que virou cult, na voz de Maria Bethânia: É o Amor, de Zezé de Camargo. Então se propalou que todo apaixonado é brega, que todo bom sentimento é brega. Que as rádios estão repletas de música brega em ritmo de rock, pop, samba, mpb, clássico... O brega virou apenas uma questão de ponto de vista e de estado de espírito. Assim é, quando um sapateiro canta Último Desejo, de Noel Rosa, espalhando, pelo cascalho afora, a desbragada paixão de alguém que segue em frente, na busca de um amor que ficou atrás.

O filme, na verdade, só acontece com a conivência do espectador que embarca na viagem proposta, disposto a aceitar a legenda do narrador, no encadeamento do texto-imagem, mesmo que possa sugerir outra coisa. Sem um texto, ele é apenas um ajuntamento de imagens que permitem infinitas leituras, menos a de quem fotografou. Podem significar muito ou nada, dependendo do olhar. Com um texto, o espectador vê tão somente aquilo que elas insinuam. É a encantadora cena de uma senhora, fazendo rosas de espuma, que nos faz perceber que o motivo da história está mais na sugestão, na intenção (ou tensão) da fala, do que necessariamente na leitura das imagens que, em outras circunstâncias, estariam disponíveis para qualquer outro monólogo..., ou diálogo.

Com vagas (mas fortes) lembranças dos inquetantes Cinema, Aspirinas e Urubus e o Céu de Suely, o lírico Viajo porque preciso, volto porque te amo é uma tocante história pra quem gosta de ler e (também) de escutar. Mas não é para o espectador ligeiro (ou talvez seja), que não se dá um tempo, que atende e fala ao celular, na sala de cinema. Que não tem paciência para, na pausa ou no silêncio, conhecer o que lhe é diferente. É um filme pra se deixar emocionar, com sua fotografia monótona, cheia de particularidade, desvelando um Brasil longe de tudo, até de si mesmo. Com uma gente que não se conhece, atrás de um sonho que não chega. Gente que é feliz na sua solidão. Gente que nega a solidão pra ser feliz. Encontrando cidades à espera de virar mar, desaparecer em águas que podem nunca chegar. Vagando por estradas que levam e trazem anônimos na sua própria terra. O espectador que recusar tal carona, jamais compreenderá o belo voo final, na rota do autoconhecimento.

Nota: Cinema, Aspirinas e Urubus foi dirigido por Marcelo Gomes, em 2005, e Céu de Suely, por Karin Aïnouz, em 2006.

2 comentários:

  1. Tudo realmente depende da perspectiva do olhar.
    Se eu já havia gostado desse filme, após ler o texto desta página, passei a gostar dele ainda mais...
    Li críticas horrendas que rebaixavam o filme, atribuindo-o como sendo coisa de amador! Definitivamente, comentários de puro mau gosto, ou, a pessoa que escreveu tamanha agruras, não estava em seus melhores dias...
    De fato o filme é puro lirismo... Para quem gosta de ler, principalmente obras epistolares, verá o belo no simples, significados dentro do cenário árido e pobre do agreste nordestino, e, possivelmente compreenderá que observar e escutar pessoas é possível ter pactualidade com a própria alma, porque todos temem a solidão... Ao narrar o subjetivo das pessoas, com efeito, perceberá o mundo, e tudo que está nele circunspecto!
    Acredito que por ter um final nada previsível, muitos chegam a odiar o filme... Parece que as pessoas só gostam do que é óbvio... A pobreza de ficar voltado apenas para um final feliz e/ou esperado, não traz crescimento individual, tampouco coletivo!

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  2. Olá, Drica.
    Que bom partilhar e compartilhar contigo a beleza de Viajo porque preciso...
    Eu, que já tinha ficado em estado de graça ao assistir Cinema, Aspirinas e Urubus e o Céu de Suely, me vi carona numa viagem emocionante e que me lembrou uma época de artista itinerante, quando viajei num Comboio Cultural por todo o Estado do Paraná, levando arte e cultura a um povo esquecido em municípios que nem "constam" no mapa.
    É uma pena que tão pouco consigam apreciar um filme tão singelo e tocante.
    Acredito, mesmo, que seja uma questão cultural.
    E não me refiro a educação formal escolar.

    Abs.

    T+
    Joba

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