quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crítica: Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É impossível


Sabe aquela sensação de impotência e pânico que a grande maioria da população sente ao assistir a um telejornal, ao ler um jornal ou revista com suas notícias catastróficas, dando a impressão de que no Brasil e no mundo estamos todos à beira do caos econômico, social, ambiental? Então, esta é a base do curioso argumento de Tomorroland - Um Lugar Onde Nada É Impossível, que sugere uma reação em cadeia ao pessimismo, conclamando os sonhadores (de pé no chão), com suas mentes brilhantes e que realmente fazem a diferença no desenvolvimento da humanidade, ao resgate do que ainda há de humano pensante em cada um de nós, para restaurar a ordem e a harmonia entre os povos. Um chamado para concretizar um sonho de progresso coletivo num mundo de amanhã..., para aqueles que acreditam num amanhã muito melhor que hoje.


Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível (Tomorrowland, 2015), ficção científica infantojuvenil dirigida por Brad Bird, autor do roteiro em parceria com Damon Lindelof, é uma ode ao otimismo, ainda que para se chegar à felicidade plena, quebre alguma cabeças pelo caminho..., uma analogia à omelete.

A receita começa a ser preparada na Feira Mundial de 1964, em Flushing Meadows, em Nova York, onde o garoto Frank Walker (Thomas Robinson) chega para apresentar a David Nix (Hugh Laurie) a sua mochila voadora, feita com sucata, ganhando o apoio da adorável garota Athena (Raffey Cassidy, impressionante!) e um convite para conhecer a espetacular Tomorrowland.  Num salto no tempo, o próximo ingrediente da massa, escolhido a dedo por Athena, é Casey Newton (Britt Robertson), uma adolescente que quer ser astronauta e sonha com o futuro da Terra resenhado positivamente. Após um incidente, Casey tem uma visão de Tomorrowland e o seu contato com o velho cientista Frank Walker (George Clooney) pode responder a todas as suas questões sobre o amanhã.


É bom que se diga que Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É impossível tem pouco ou nada a ver com a Tomorroland da Disneylândia. Ou talvez tenha, já que é o universo expandido de um protótipo futurista de Walt Disney, que tinha muita fé na tecnologia que deu vida ao seu gigantesco empreendimento de entretenimento. Com o sucesso da Feira Mundial de 1964, o empreendedor desenvolveu o projeto Experimental Prototype Community of Tomorrow, ou EPCOT..., uma cidade modelo onde a tecnologia e o planejamento urbano criavam um ambiente ideal para se viver. Disney morreu antes de realizar o seu sonho e o projeto EPCOT foi simplificado.

Tomorroland - Um Lugar Onde Nada É Impossível tem um interessante leque de reflexões sobre a influência dos nossos atos cotidianos no equilíbrio do planeta, a médio e a longo (?) prazo, e como se fundamenta o conceito de utopia e de distopia (tão na moda nos rasos filmes juvenis do gênero). Na discussão sobre a influência da mídia na propagação do caos, que aparece de forma pertinente na narrativa, sugiro a leitura do artigo Observatório da Imprensa: Outras razões para a pauta negativa, que postei lá no Falas ao Acaso.


A princípio, a trama pode parecer simplória e até infantil, com seu otimismo exacerbado ao apostar (ou apontar) num futuro mais digno para toda a sociedade. Mas, pensando bem, é nas crianças, nos jovens das próximas (terceira? quarta?) gerações que estão depositadas as esperanças de quem não vê a saída para um mundo tão desgovernado. Acho que somente a criança do amanhã poderá responder à bela Imagine de John Lennon: (...) Imagine que não houvesse nenhum país/ Não é difícil imaginar/ Nenhum motivo para matar ou morrer/ E nem religião, também/ Imagine todas as pessoas/ Vivendo a vida em paz (...) Imagine que não há posses/ Eu me pergunto se você pode/ Sem a necessidade de ganância ou fome/ Uma irmandade dos homens/ Imagine todas as pessoas/ Partilhando todo o mundo (...) Você pode dizer que eu sou um sonhador/ Mas eu não sou o único/ Espero que um dia você junte-se a nós/ E o mundo será como um só (...) E o mundo viverá como um só..., e que talvez, inconscientemente, tenha servido também de inspiração à esta história.

Nesse mote de imaginar e realizar, principalmente pensando no público jovem (?), o roteiro é bom, mas a ansiedade acaba atropelando a narrativa, deixando o terceiro ato meio confuso...., principalmente no fechamento (simplório) do enredo e no (equivocado?) destino de Nix. Detalhe de uma leitura mais crítica..., arranha, mas não tira o mérito desta parábola. E muito menos compromete a compreensão do todo.



Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada É Impossível tem aquele adorável estilo retrô sessentista, com referências ao steampunk. A surpreendente sequência da Torre Eiffel, onde os geniais Gustave Eiffel, Jules Verne, Thomas Edison e Nikola Tesla teriam se encontrado no outono de 1889, para discutir o futuro da humanidade, é inesquecível.  Os efeitos visuais são excelentes e o elenco, com destaque para Raffey Cassidy, veste o filme como uma luva. Eu diria que é um filme com efeitos colaterais. Na hora nem se dá muita importância, mas, passado um tempo, as mensagens (subliminares?) vão saltitando na sua mente pedindo um pouco de atenção e dizendo: Por que não? Pois, como disse Brad Bird: “Sempre que há uma tela em branco, há duas maneiras de vê-la: uma é o vazio e outra é a grande abertura a possibilidades. E é assim que eu gosto de ver o futuro - como uma grande possibilidade. É uma visão que se perdeu em termos de ver o futuro”.

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