segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Crítica: Reflexões de um Liquidificador


Reflexões de um Liquidificador
pensar é moer ... moer é pensar

Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel, é uma daquelas obras universais que raramente são produzidas no Brasil e que, prazerosamente, ficam para sempre na memória, como o seu antológico Marvada Carne (1986).

Por um bom tempo o curioso e divertido trailer de Reflexões de um Liquidificador passou nas salas do Unibanco Arteplex e depois sumiu. Achei que jamais chegaria (como a maioria dos enunciados) aqui em Curitiba, apesar de ter sido exibido num dos Testes de Audiência da Caixa Cultural, em que não fui. Mas, para a minha surpresa, o filme estreou e, para minha tristeza, na sessão do Clube do Professor (cujos frequentadores praticamente odeiam filmes nacionais que fazem pensar ou, no mínimo, não subestimam a inteligência do espectador) tinha “meia dúzia” de professores e agregados pingados. O que é uma lástima!


É curioso destacar que muitos professores só conheceram cinema por conta do Clube do Professor do Unibanco Arteplex. Porém, desde o começo, tenho percebido que a maioria prefere os filmes da moda ou com atores globais da moda. As sessões com filmes nacionais são as menos concorridas. Na fila tem sempre um ou outro professor que enche a boca pra dizer que odeia filme brasileiro, mesmo não tendo visto nenhum, a não ser os recortados pra televisão que, evidentemente, não é CINEMA. Assim, por total ignorância, deixam de ver obras marcantes como: É Proibido Fumar! (de Anna Muylaert), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz) ou mesmo esta maravilha que é Reflexões de um Liquidificador.

Em São Paulo, Reflexões de um Liquidificador é (ou foi) precedido por um curta-metragem (num total de oito, cada dia um diferente), um show musical ou stand-up comedy, um bate-papo com o público - como se não bastasse a excelência do filme - na esperança de oferecer mais uma atração ao público que passa ao largo das salas de projeção do bom cinema brasileiro. Um cinema que, ainda que para o prazer de uma minoria cinéfila, não reza pela cartilha fácil e oportuna dos monopolizadores de um “padrão” comercial. Um cinema para alguém que quer ver algo mais que transposições de apelativas matérias violentas de telejornal ou séries televisivas (de gosto duvidoso), com os mesmos dos mesmos e para os mesmos. Em Curitiba o filme chegou cru. A mim, basta.


Reflexões de um Liquidificador fala de um velho liquidificador avariado (interpretado pela inconfundível voz de Selton Mello) que, ao voltar do conserto, com uma lâmina nova, não se sabe se por causa de um parafuso a mais ou a menos, percebe que se tornou um ser pensante, um eletrodoméstico consciente de tudo que se passa ao seu redor. Logo ele começa analisar os humanos e a tagarelar com Elvira (Ana Lúcia Torre), uma pacata dona de casa, às voltas com o desaparecimento do seu dócil marido Onofre (Germano Haiut) e com o enxerido investigador Fuinha (Aramis Trindade), destacado para averiguar o caso. Assim, o círculo de amizade de Elvira, que não vai além da fogosa vizinha Milena (Fabíula Nascimento) e o Carteiro (Marcos Cesana, falecido recentemente), ganha mais um curioso e questionador integrante.

Reflexões de um Liquidificador, baseado no inteligente e inusitado roteiro de José Antônio de Souza, é um filme irretocável, onde menos é sempre mais. O que não tem nada a ver com economia e sim com a essência do que é dito ou mostrado. É uma comédia de humor negro, cheia de sutilezas e surpresas, tão redondinha que nem se percebe o tempo passar. Se os atores estão inspiradíssimos (com destaque para Ana Lúcia Torre e Aramis Trindade, além do Liquidicador Selton Mello, é claro), os cuidados com a direção de arte (Jean-Louis Leblanc e Ana Rita Bueno) e com a fotografia (Uli Burtin) não ficam atrás. É evidente que pra atingir tal harmonia é preciso uma direção competente e, portanto, que saiba o quer e como quer que a sua história (maluca) chegue convincentemente ao público. Se bem que acho uma maldade e até desumano “hipnotizar” o espectador com uma trilha original tão deliciosa como a de Mário Manga e aquele assobio arrebatador.



Num longa-metragem, onde tudo funciona, é difícil destacar algum momento, mas creio que a sequência da mudança, quando o filosófico Liquidificador é encaixado num engradado de frutas e tem a oportunidade de olhar, conhecer e comentar o mundo ao seu redor é impagável. Tomara que os professores o “descubram” em tempo. É um excelente material para se discutir linguagem, fantasia, filosofia, antropologia e até taxidermia, com alunos adolescentes. Também porque, a fabulosa narrativa de Reflexões de um Liquidificador tem cara de adaptação de um excelente livro (que se fica louco pra ler após o filme) e não de uma idéia muito bem desenvolvida a partir de uma mera nota policial em um jornal.

2 comentários:

  1. Realmente "Reflexões de um Liquidificador" é uma pequena pérola. Eu vi no teste de audiência e agora finalizado no cinema percebi que o diretor acatou os conselho do público, remontou o filme deixando-o mais agíl e mudou o final. Quem não viu vá ver, pois na próxima semana vão entrar um blockbusters e é bem capaza de ele sair de cartaz. Não percam!

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  2. Olá, Antunes.
    Tomara mesmo que o público que gosta de um bom espetáculo desperte mesmo pra essa graça de filme.

    Abração.
    T+
    Joba

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