domingo, 18 de abril de 2010

Crítica: As Melhores Coisas do Mundo


As Melhores Coisas do Mundo

Num conhecido (e diversificado) trava-língua: O tempo perguntou pro tempo: Quanto tempo o tempo tem? O tempo respondeu pro tempo: O tempo tem tanto tempo quanto o tempo que o tempo tem. A criança, geralmente, se perde no tempo que tem (do nada fazer) no só brincar. O adolescente, geralmente, se perde pela falta de tempo que tem (por muito querer fazer). O adulto, geralmente, não tem mais tempo de perder tempo (com o nada a fazer). Quem é o dono do tempo? Ninguém!

As Melhores Coisas do Mundo fala, com seriedade, de um tema pouco comum no cinema: a adolescência. O seu foco está em Mano, um garoto de 15 anos, classe média, que ainda não sabe como administrar a separação dos pais e muito menos entender a desconfortável opção de vida do pai. Ele também precisa corresponder às expectativas da turma de amigos, perder a virgindade e, de quebra, aprender a tocar violão, pra conquistar uma certa garota do colégio.

Inspirado em Mano, série de livros de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, com roteiro de Luiz Bolognesi e direção de Laís Bodansky, o filme transita entre o cinema de entretenimento e o institucional. É, sem dúvida, honesto no propósito de discutir o cotidiano do estudante adolescente e seus instáveis dilemas, sonhos e pesadelos: preconceito, profissão, namoro, sexualidade, família, confiança, relacionamentos..., entretanto, na maior parte do tempo, lembra um grande painel de Lição de Moral sobre o (conceito geral de) certo e errado. Por mais que envolva o espectador na trama não muito complexa, mas de difícil abordagem, ele (me) parece fragmentado, didático (e convencional) demais. Mesmo tratando, apropriadamente, de questões delicadas, como o relacionamento amoroso entre alunos e professores e a educação em tempos de mídia ligeira: internet.

Além da série de livros juvenis, a produção buscou base no mundo (real) adolescente, através de pesquisa com estudantes em seu próprio habitat: o colégio. O que dá mais veracidade ao filme em que, com certeza, muitos se reconhecerão nas pisadas de bola e nas marcações de gol. Poderão refletir e, quem sabe, até aprender muito com elas. As Melhores Coisas do Mundo tem alguns problemas de interpretação, por conta do elenco iniciante, e com o áudio, às vezes é impossível entender as falas. Mas, também apresenta momentos inspiradíssimos, daqueles de ficar na retina e na memória por toda a vida, como a catarse de mãe e filho, Camila (Denise Fraga) e Mano (Francisco Miguez) na cozinha. Algo comparável apenas ao instante inesquecível de Fernanda Montenegro, catando o feijão sobre a mesa, em Eles Não Usam Black-Tie (1981) de Leon Hirszman.

Dentro do Projeto Educativo, que pretende abrir um amplo debate sobre valores na adolescência, junto aos professores que frequentam o Clube do Professor (Unibanco Arteplex), mas que não demonstram o menor apreço por filme nacional (a grande maioria torce o nariz), preferindo os estrangeiros da moda, ainda que, como toda moda, de qualidade duvidosa, ele pode (ou deveria) até funcionar. Principalmente porque os professores sempre reclamam que ninguém quer ouvir o que a classe tem a dizer e que não há pedagogia (do oprimido ou do espremido) que possa dar um jeito nos alunos de hoje. Mas não acredito nele como formação de uma platéia que vê o cinema brasileiro como uma panela de pressão cozinhando apenas dramas de favelados, traficantes, violência e tolas comédias de baixarias. Na sessão, em Curitiba, tinha pouco mais que vinte professores apressados. A metade participou do bate-papo com Heloisa Prieto.

É possível ser feliz depois que a gente cresce? - pergunta Mano, na abertura do filme. O trava-língua é difícil de pronunciar. A adolescência é difícil de aceitar. Mas tudo fica muito mais fácil quando se descobre os segredos de um e de outro. As Melhores Coisas do Mundo e os livros da coleção Mano podem ser um começo para decifrar o labirinto...

2 comentários:

  1. O você tocou num ponto nevrálgico do filme, ele é muito didático, muito politicamente correto,mas ainda assim tem grandes momentos.

    Este filme é um pouco Gilberto Dimenstein demais e Heloisa Prieto de menos. E desta forma cai em algumas obviedades.

    Além de que eu não consegui captar qual é a motivação do personagem principal.

    Laís Bodansky que vinha de uma magnífico Chega de Saudade, deu um passo em falso em As Melhores Coisas do Mundo. Vamos esperar que na próxima vez ela acerte.

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  2. Olá, Antunes.
    Gostei muito do Chega de Saudade,
    que me lembra o maravilhoso
    O Baile (1983), de Ettore Scola.

    Já o As Melhores Coisas do Mundo,
    é telhado de vidro demais pra quebrar.
    Se torna cansativo o toma-lá-dá-cá,
    no tudo ou nada adolescente.
    Ou se alinha ou vira um nó.

    Abs.

    T+
    Joba

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