quarta-feira, 11 de julho de 2018

Crítica: Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas


Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas
por Joba Tridente.

Quando uma franquia cinematográfica chega ao seu terceiro filme, já não há muita novidade sobre os personagens e os rumos da história. Mas, em se tratando da animação Hotel Transilvânia, espremendo as mangas, ainda é possível encontrar alguma surpresa nas cartas de navegação que o eficiente diretor Gendy Tartakovski (Samurai Jack) guardou e agora joga na mesa das apostas, cuja roleta do tempo traz o incansável e inescrupuloso caçador de monstros Abraham Van Helsing para a sua batalha definitiva contra o Conde Drácula, em Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas.


Roteirizada por Michael McCullers e Tartakovski, que também dirigiu Hotel Transilvânia (2012) e Hotel Transilvânia 2 (2015), a trama de férias começa a desfazer os nós em 1897 (a bordo do trem de passageiro Bavária/Budapeste), ilustrando todas as tentativas frustradas do ostentoso Van Hensing em eliminar o Conde Drácula até os dias de hoje, quando o caçador arquiteta o mais mirabolante e infalível plano para acabar com todos os monstros (de uma só vez) e que será colocado em prática durante um cruzeiro de luxo (especial para seres monstruosos) que começa no Triângulo das Bermudas e termina na “cidade perdida” de Atlântida, com seus cassinos e diversões típicas de Las Vegas.

Nesta peleja centenária, onde não há espaço para blefe, mas que está repleta de brechas para gags visuais e muito humor pastelão (e algumas boas metáforas), Van Helsing, agora reduzido a uma mirabolante engenhoca steampunk e vivendo no porão do seu imenso navio, e a sua decidida e impaciente bisneta Ericka, a dúbia capitã que mexeu com o coração solitário do tímido viúvo Drácula (em busca de um novo amor) farão de tudo para encontrar um antigo artefato que poderá ser fatal para monstros.


Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas, com sua fantástica viagem marítima ao redor de um mundo de aventuras muito além do Triângulo das Bermudas, é uma boa comédia de erros, onde não faltam ação, suspense, confusão romântica entre os casais e espaço para trapalhadas individuais ou em grupo de personagens queridos como o Geleia, a Múmia Murray, o Frankstein Frank, o Homem Invisível Griffin, o ruivo Dennis (e seu esperto cachorro gigante “Bob”), filho do humano Jonathan e da vampira Mavis. A viagem por águas desconhecidas é tão insólita que até mesmo o decrépito vovô Vlad é capaz de despertar interesse amoroso... Como não sou trailer, falar mais que isso é comprometer o enredo, desvelando grandes surpresas.


Assim, considerando a apuradíssima técnica cartunesca, que brinca com a forma física dos personagens; os fascinantes cenários e deliciosos achados visuais (como nas excelentes sequências no interior do trem e do avião dos Gremlins, ou no passeio de Drácula pelo convés e pelo fundo mar); a história linear com final razoável (que lembra o duelo musical de O Touro Ferdinando) e o humor fácil para o público infantojuvenil e seus acompanhantes adultos; o colorido agradável e a mensagem bacana sobre o excesso de trabalho e sobre a aparência física e as ações violentas que não distinguem homens e monstros (ironizando duplamente Van Helsing..., e os belicistas do mundo); o roteiro simples com soluções inteligentes para diferentes situações cômicas (relacionadas à tecnologia e ou ao amor)..., Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas pode não ser melhor que os dois filme anteriores, mas ainda diverte graças à inegável competência de Gendy Tartakovski e seus adoráveis monstros travessos.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Crítica: Jurassic World: Reino Ameaçado


Jurassic World: Reino Ameaçado
por Joba Tridente

Com a chegada de mais um bando de dinossauros às salas de cinema, em mais um capítulo da franquia Jurassic, iniciada por Steven Spielberg em 1993, com base no romance Jurassic Park, thriller tecnológico escrito por Michael Crichton (1942-2008), a pergunta que muito espectador fã da ficção científica faz é: Até quando os realizadores da franquia terão fôlego e criatividade para repovoar a imaginação do público com seus monstrengos pré-históricos?

Bem, a se acreditar nas notícias vagas da internet, pelo menos no que diz respeito à franquia Jurassic World, a trilogia se encerra em 2021, com mais uma história corroteirizada e dirigida por Colin Trevorrow..., que foi quem recomeçou a franquia com o morno Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros, em 2015. Mas, enquanto este ano não chega, ocupemo-nos do de Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018), com boa direção do cineasta espanhol J.A. Bayona (Sete Minutos Depois da Meia-Noite, O Impossível, Orfanato).


Jurassic World: Reino Ameaçado, com roteiro pouco inspirado de Colin Trevorrow e Derek Connolly, e suas cansativas referências ao clássico Jurassic Park (1993), se passa três anos após mais um desastre, digo, mais uma tragédia (óbvia!) envolvendo humanos e dinossauros clonados ou geneticamente modificados na Ilha Nublar, e prenunciando mais duas desgraças: a primeira é comunicada logo no início da trama, com a notícia catastrófica da erupção do vulcão Monte Sibo (capaz de extinguir novamente os dinossauros), e a segunda, que reflete uma discussão no Congresso Americano sobre o destino dos animais abandonados à própria sorte em Nublar, chega com a noite tenebrosa, toma conta do Santuário Lokwood, e deve se agravar o amanhecer em Jurassic World (2021).

Bem, falar em tragédia na franquia Jurassic tem mais a ver com redundância do que com spoiler, já que todos os filmes da série terminaram com uma grande tragédia e já que algumas surpresas deste (para azar de quem viu!) estão nos trailers. Como não vejo nenhum trailer antes de assistir ao filme, consegui me divertir e me deixar envolver pelo pavor muito bem orquestrado por Bayona, principalmente na soturna sequência final.  


Neste penúltimo (?) capítulo da franquia, por causa da erupção do vulcão na Ilha Nublar, Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), a ex-gerente do parque, e atual presidente do Grupo de Proteção dos Dinossauros e Owen Grady (Chris Pratt), o ex-treinador de velociraptores, são contratados pelos empreendedores Benjamin Lockwood (James Cromwell) e Eli Mills (Rafe Spall) para resgatar o maior número possível de dinossauros e transferi-los para outra ilha (sem vulcões e sem parque de diversão). O que leva Owen a enfrentar o “Inferno de Dante” é o propósito de salvar a inteligente velociraptor Blue. Mas, como todos sabemos, na ficção ou na vida real, se esmola é demais o santo deve desconfiar, quando o nosso benevolente casal de heróis, com a ajuda do TI Franklin (Justice Smith) e da médica Zia (Daniella Pineda), se dá conta de que a história do resgate não é exatamente o que parece e que nem todo capitalista tem vocação para Noé, vai ter de correr um bocado, fugindo de mercenários, das lavas e dos dinossauros desesperados, para tentar evitar outra tragédia (óbvia!) maior (não diga que eu não avisei!). Se bem que a carnificina, na Costa Oeste Americana, é bem merecida! Aliás, excetuando o mau-caráter Dr. Henry Wu (BD Wong), geneticista do Jurassic Park desde 1993, acho que vai faltar (?) vilões humanos na jornada final dos dinossauros em solo norte-americano.  


Jurassic World: Reino Ameaçado é uma prova de que, até um roteiro tosco (que não dispensa clichês óbvios), nas mãos de um diretor criativo, pode resultar num filme interessante. Trabalhando com dois cenários distintos (Ilha de Nublar e Mansão Lockwood), e sem perder o ritmo (de ação e aventura), Bayona dosa meticulosamente cada ato com uma carga eficiente e diferente de terror psicológico e real. Um terror que leva o espectador a um riso amarelo-sádico, com o nível de violência dos inusitados ataques do terrível Indoraptor (combinação do Indominus Rex com Velociraptor)..., ou a um frio na espinha, com a iminência do seu ataque, em cenas primorosamente sugeridas com o uso perfeito de luz e sombra. Há duas cenas envolvendo a garotinha Masie Lockwood (Isabella Sermon) e o Indoraptor, que são irretocáveis. Elas não vão além dos segundos necessários para incomodar e apavorar até os espectadores mais corajosos..., porque não dependem do susto-áudio que automatizou os recentes filmes de terror. É bem provável que estas duas sequências despertem no público adulto o mesmo pavor anteriormente provocado pelo antológico Alien - O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott.


Enfim, considerando que a direção e a criatividade do talentoso J.A. Bayona traz vigor e suspense à franquia que está tentando galgar outros patamares, com o processo de clonagem animal e a manipulação genética; que pelo final deste capítulo o epílogo da trilogia Jurassic World pode surpreender em 2021; que o próximo filme talvez tenha nada a ver com Baby: O Segredo da Lenda Perdida (1985); que o elenco é convincente, ainda que a variedade de personagens seja mínima; que há espaço para homenagens a filmes “B” e os efeitos especiais (CGI e Animatrônicos) são excelentes; que em meio a situações de terror há algum alívio cômico (ainda que sádico) no ataque dos dinossauros aos homens maus..., se você não levar muito a sério a história de ficção científica e deixar de lado o “mais uma vez o já visto anteriormente”, vai se divertir um bocado e até se apavorar com algumas sequências memoráveis do entretenimento Jurassic World: Reino Ameaçado, que mescla muito bem fantasia e terror.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Crítica: A Morte de Stalin


A Morte de Stalin
por Joba Tridente

Com suas farsas e sátiras políticas televisivas e cinematográficas, o cineasta e roteirista escocês Armando Iannucci vem se tornando merecidamente unanimidade e referência de qualidade e ousadia. É impossível ficar indiferente à comicidade de pérolas como o longa-metragem In the Loop (2009) e as séries The Thick of It (BBC - 2005/2012) e Veep (HBO - 2012/2016)..., e ou não reconhecer a sua maestria com a brilhante desconstrução de um mito da tirania e seus asseclas na anárquica comédia dramática A Morte de Stalin (The Death of Stalin, 2017).

Baseado na premiada graphic novel homônima (2010), dos franceses Fabien Nury e Thierry Robin, lançada no Brasil em 2015, a sátira A Morte de Stalin, com roteiro inteligente de Iannucci, David Schneider e Ian Martin, é tão ferina quanto necessária nestes dias turbulentos (de ânimos acirrados nas redes “sociais”) em que políticos populistas (e seus correligionários acéfalos) se fazem de mansas ovelhas e armam as suas arapucas para chegar ao poder e nele permanecer ad infinitum.


A trama, situada em 1953, cobre algumas horas antes e, principalmente, alguns dias após a morte do tirano sanguinário (que se considerava o pai dos povos) Joseph Stalin (Adrian McLoughlin)..., quando então a ebulição política toma conta do Politburo, onde o deputado Georgy Malenkov (Jeffrey Tambor), o chefe do partido Nikita Khrushchev (Steve Buscemi), o ministro das Relações Exteriores Vyacheslav Molotov (Michael Palin), o chefe da polícia secreta Lavrentiy Beria (Simon Russell Beale) se engalfinham na ambição de sucedê-lo. Todos temem uns aos outros. Todos se blindam com as “armas” que têm: documentos, anotações e ou farta hipocrisia. 

Para desatar esse imbróglio, o excepcional diretor Armando Iannucci convocou um elenco sublime, que inclui também Jason Isaacs (o fanfarrão marechal Zhukov), Rupert Friend e Andrea Riseborough (o beberrão Vasily e a perturbada Svetlana, filhos de Stalin) e o expressivo fotógrafo Zac Nicholson, que (ladeado pela direção de arte) dá a Londres as características perfeitas da Moscou cinquentista. Pelo seu toque humorístico (a melhor maneira de atingir a qualquer alvo) A Morte de Stalin, cujos fatos narrados com descompromissada elegância e diálogos afiados e hilários (em inglês e sem sotaque russo!), pode até parecer, mas não é ficção. Pelo menos no todo! O que não quer dizer que não tenha lá um olhar muito particular sobre esses fatos (alguns até negados por partidários radicais, que seguramente se recusarão assistir a esta preciosidade).


Embora a trama cite (com brevidade e contundência) o lado mais tenebroso daquela ditadura banhada em sangue e corrompida até a alma (como todas as ditaduras), o foco da trama é a insana corrida ditatorial, com cada “candidato” se esmerando nos conchavos com membros menos potenciais e na destruição moral (e física) do provável concorrente. É da sordidez dos vilões posando de santos, enquanto o corpo de Stalin esfria e durante a realização do velório, que vem o humor (inglês e negro) com gags visuais perspicazes (às vezes beirando o pastelão) e diálogos ferinos. Rimos da estupidez e da (nossa) servidão humana. Rimos da nossa impotência, inda temerosos da repetição dos erros eleitorais passados, na tentativa de superar a dor e as frustrações políticas. Rimos da mediocridade dos poderosos ridículos em suas mortes solitárias..., vítimas da mesquinhez e do próprio mecanismo genocida que criaram.


Enfim, considerando o notável roteiro, o ritmo e a abrangência da história, que não faz concessão a político algum (de ontem e de hoje, que queira vestir a carapuça); que a narrativa sólida, sem cair na gratuidade do gracejo vago ou sádico (!), traz sequências antológicas..., como, por exemplo, a do concerto ao vivo (“Esta é apenas uma emergência musical!”) e as suas consequências drásticas; ressaltando que algumas cenas (ou tiros!) são ótimas metáforas ao mercado político de hoje no mundo; levando em conta que a obra foi censurada na Rússia (por motivos óbvios!)..., A Morte de Stalin é uma sátira política da melhor qualidade. Um filme para quem aprecia a originalidade crítica em tempos de entretenimentos capengas...

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Crítica: Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim


Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim
por Joba Tridente*

Sete anos após a criativa releitura musicada de Romeu e Julieta, de William Shakespeare, na animação britânica (com fortes elementos teatrais) Gnomeu e Julieta, o romântico casal de gnomos de jardim, está de volta para mais uma empolgante história. Desta vez, pegando carona nas páginas literárias do misterioso mundo de Sir Arthur Conan Doyle, a dupla se junta aos agentes Sherlok e Watson, para resolver o estranho sumiço de gnomos dos jardins de Londres.


Repleta de ação e aventura, a animação Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim (Sherlock Gnomes, 2018), com bom roteiro de Ben Zazove e direção cuidadosa de John Stevenson (Kung Fu Panda, 2008), começa com uma estratégica mudança de cenário: sai a bucólica Stratford-Upon-Avon (terra natal de Shakespeare) e entra a urbana Londres, onde os recém-chegados Gnomeu (James McAvoy) e Julieta (Emily Blunt), juntam-se ao arrogante e egocêntrico adorno de jardim Sherlock Gnomes (Johnny Depp) e seu subestimado parceiro Dr. Watson (Chiwetel Ejiofor), para encontrar a sua família que, assim como os gnomos dos jardins da capital inglesa, desapareceu sem deixar rasto. Bom, na verdade, o sequestrador até que tem deixado pistas por onde passa, sugerindo que o autor dos crimes é o malvado Moriarty (Jamie Demetriou), o mascote de uma doceria e arqui-inimigo de Gnomes. O problema é que Moriarty morreu no último confronto com Sherlock. Então, quem está sequestrando e se fazendo passar pelo vilão? Qual o destino dos gnomos sequestrados? Será que o famoso Sherlok Gnomes, com seu incomparável espírito analítico, conseguirá resolver mais esta caso? É ver pra crer.


Fazendo referências a várias histórias de Conan Doyle para Sherlock Holmes, incluindo O Cão dos Baskervilles e o polêmico O Problema Final, o desenho animado, que faz bom uso de elipses, para dar mais agilidade à envolvente trama, também apresenta uma insinuante versão “Barbie” da única mulher a vencer o genial Sherlock (nos livros): a admirável Irene Adler (Mary J. Blige)..., numa sequência fascinante em que ela brinda o espectador com Stronger Than Ever, a nova composição de Elton John e Bernie Taupin. Há, pelo menos, mais umas duas outras sequências muito boas, mas perde a graça, se eu citar.


Assim como no filme anterior, o requinte no detalhamento e na textura dos gnomos (com todo tipo de avaria) dá uma veracidade ainda maior na composição irretocável de cada expressivo personagem. E falando de excelência técnica e CGI, o que também chama muito a atenção são os impressionantes flashes (em 2D) que ilustram as lembranças (em preto e branco) de Sherlok e (em cores) de Moriarty ao desvelar o raciocínio investigativo de um e o plano maléfico do outro. Enquanto a mente de Gnomes se aproxima da meticulosidade estética de M.C. Escher (1898-1972), a de Moriarty não vai além de uns rabiscos.


Não resta a menor dúvida de que, ao investir na releitura de obras literárias de grandes escritores universais, estes adoráveis personagens (com suas idiossincrasias humanas) têm potencial para maravilhar espectadores de diferentes fixas etárias e mesmo despertar-lhes o interesse pela literatura. Vejo estes graciosos gnomos e adornos de jardim, cheios de personalidade, como uma trupe de atores pronta para representar textos dos mais diversos autores nos mais diferentes cenários. Eles se saíram muito bem com William Shakespeare e com Conan Doyle. É uma ideia original que, em mãos certas (de roteiristas e diretores), sempre resultará num divertido espetáculo para toda a família..., desde que esta não esteja preocupada com lição de moral e ou se algum dos gnomos será quebrado durante o espetáculo.


Enfim, considerando a história infantojuvenil de ação e suspense e alguma ousadia na linguagem visual (e entrelinhas) muito bem costurada; as reviravoltas convincentes; a narrativa inteligente que prioriza mais o conteúdo que o humor fácil, já que é engraçada, mas não chega a ser hilária; o elenco de ponta que dá voz aos gnomos e adornos de jardim; a seleção musical do produtor (da animação), compositor e cantor Elton John, que não incomoda; a qualidade do roteiro de Ben Zazove e a notável direção de John Stevenson..., Gnomeu e Julieta: O Mistério do Jardim, que é uma produção britânico-americana, tem tudo para deixar o seu público alvo (pensante) ligadíssimo e, consequentemente deve agradar também aos acompanhantes (pensantes) da garotada.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Crítica: Deadpool 2


Deadpool 2
por Joba Tridente

No campo das artes, o sucesso por ser imprevisível. Nem sempre as grandes apostas acompanham as grandes promessas. Se na área da música o fardo é pesado, no cinema pode até encerrar carreiras de estrelas prodígios. Na era do bigue-bangue hollywoodiano que catapultou o Universo Marvel para além das revistas de histórias em quadrinhos e vem desvelando galáxias para que também o Universo DC tenha oxigênio para os seus balõezinhos um tanto sombrios, a vida de herói e ou anti-herói na telona nem sempre é garantia de perenidade quanto aquela das páginas de um gibi. Também porque não tem a menor ideia de que recorte da sua vida irá viver na cinebiografia.

Às vezes, de onde menos se espera, aparecem algumas pérolas: Guardiões da Galáxia, Mulher Maravilha, Pantera Negra, Homem-Formiga, por exemplo. De outras, onde mais se aposta: Esquadrão Suicida, O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, por exemplo, vem o pedregulho. Roteiro, direção, carisma de personagens e atores, tudo influi, tudo flui para o sucesso e ou para o fracasso no giro da roleta nas mãos do espectador juvenil (que gosta de qualquer coisa em movimento) e ou do espectador adulto um pouco mais exigente na diversão.


Dois anos depois de estourar a boca do balão com Deadpool, o desbocado, safado e irônico Wade Wilson/Deadpool (Ryan Reynolds), o metalinguístico personagem dos quadrinhos Marvel, está de volta às telonas com Deadpool 2 (Deadpool 2, 2018) com a mesma irreverência para enfrentar Cable (Josh Brolin) um soldado do futuro que viaja no tempo para exterminar Russell/Firefist (Julian Dennison), um adolescente poderoso e descontente com o tratamento que recebe do rígido diretor (Eddie Marsan) do reformatório para jovens mutantes Broadstone House. Para enfrentar este caçador implacável, Deadpool vai criar o seu próprio grupo de heróis, o X-Force, que conta, entre outros pretendentes ao ofício, com a ágil sortuda Domino (Zazie Beets). Também retornam para abrilhantar este fumegante capítulo: Vanessa (Morena Baccarin), a namorada de Wade Wilson; o taxista Dopinter (Karan Soni); o barman Weasel (TJ Miller) e os mutantes “X”: Colossus (voz de Stefan Kapicic) e Negasi Teenage Warhead (Brianna Hildebrand).


Ao dizer que Deadpool 2 é um filme família, Deadpool não está necessariamente falseando a verdade, fazendo um chiste, porque, do seu conturbado ponto de vista e sem levar em conta a sua atividade de risco, ele está bem mexido com a ideia de um lar pra chamar de seu e até mesmo sonha com filhos. Toda via da violência e pancadaria, no entanto, para um mercenário (ainda que imortal) com a sua folha corrida, a lua de mel com o amor da sua vida pode se tornar uma lua de fel. Tudo é uma questão de trabalho e ou de tempo.

Quem assistiu ao filme anterior (fã ou não do anti-herói) e sabe do potencial do personagem e de suas incômodas idiossincrasias não vai se preocupar ou se horrorizar com seus atos insanos, já que o tresloucado Deadpool continua cumprindo à risca a sua sina de não dar trégua a bandido. Já o espectador de primeiro contato pode se incomodar um pouco com alguma cena ou diálogo..., mas nada que o faça sair da sala. Pois, passado o “susto” diante de situações esdrúxulas e sanguinolentas (exaustivamente exploradas em games, em filmes de heróis e em telejornais), vai se divertir e rir um bocado dessa paródia que, se forçar comparação, é bem mais “leve” que a anterior.


Deadpool 2 mantém ligada a chave de impropérios do personagem, quase que do princípio ao fim. Estão lá (a cada cena) as tiradas espirituosas e ou sacanas, as citações de filmes como Yentl (1983) e Instinto Assassino (1992), por exemplo, que a maioria do público jovem deve desconhecer, e de obras mais recentes (que não vou citar por conta de spoiler), a azaração com os personagens da DC e da própria Marvel. Quando ao humor, há piadas e gags para todos os gostos, apelos e compreensão, por isso alguma coisa é capaz de passar batida e ou não terá a menor graça..., principalmente aquelas de humor negro (que nem todo mundo entende). A mim, toda a sequência de formação e ataque da X-Force é sensacional, com destaque para o antológico salto de paraquedas da equipe, principalmente por causa de um detalhe genial (nada de spoiler!). Bem, também tem a inimaginável e hilária sequência de crescimento de partes faltantes de Deadpool..., só vendo pra crer!


Enfim, pra variar, não dá pra falar muito de Deadpool 2, sem cometer spoiler. Portanto..., considerando a eficiência do roteiro (sem enrolação) de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds; a excelente direção e ótima coreografia de luta de David Leitch; o notável desempenho do elenco, com Reynolds arrasando novamente, na boa companhia de Brolin e Beets (que rouba um bocado de cenas)..., a nova aventura do falastrão Deadpool, embora tenha um certo ar de melancolia e um “discurso” até catártico sobre a morte e ou o morrer (nada que aborreça o espectador), é diversão certa para quem já se acostumou com esse universo de heróis de HQ em cenas desenfreadas (ôps!) de ação gore-alucinante. Não fica nada a dever ao filme original.

Ah, tem duas cenas durante os créditos finais. Segundo informações na Wikipedia, é improvável um Deadpool 3, já que a intenção da Disney/Marvel é investir em X-Force. Mas, sabe como é, nesse mundo onde a bilheteria é o fiel da balança dos produtores...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Crítica: A Noite do Jogo


A Noite do Jogo
por Joba Tridente

O cinema é feito de grandes e pequenos prazeres..., e também de prazer nenhum. E nem sempre é questão de estado de espírito durante a sessão. Tem mesmo a ver com argumento, roteiro, elenco e direção, que somente em mãos certas são eficazes. Como é o caso da sensacional comédia A Noite do Jogo (Game Night, 2018).


A Noite do Jogo é uma deliciosa surpresa de qualidade cada vez mais rara no entretenimento humorístico hollywoodiano. A comédia adulta e excêntrica, protagonizada por um elenco notável, ótimo roteiro de Mark Perez e brilhante direção da dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, gira ao redor de um grupo de amigos que semanalmente se encontra para se divertir com jogos de tabuleiro e também comer salgadinhos, bebericar e jogar conversa fora. 

No entanto, a noitada tranquila..., que sempre acontece na casa do romântico casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams), para onde se dirigem Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury), também casados, e o tolo Ryan (Billy Magnussen) com suas namoradas, ocasião em que o estranho vizinho policial Gary (Jesse Plemons) é propositadamente esquecido..., está prestes a mudar, com a chegada de Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais bonito, mais empreendedor e mais bem sucedido de Max, propondo um jogo inédito valendo o seu belo Corvette Stingray. A proposta de Brook é simular o sequestro de um dos participantes, deixando pistas pela casa. Porém, assim que ele acontece, a confusão está armada, já que nem tudo é o que parece, tanto para os personagens quanto para o espectador, nessa trama inteligente e hilária envolvendo máfia, bandidos, policiais, atores e pessoas comuns se divertindo em busca de um prêmio. (Não assista ao trailer!!!)


É bom lembrar que, com sua bem dosada mistura de comédia de erros com thriller, excelente ritmo e ação alucinada (na maior parte) pastelão, A Noite do Jogo tem nada a ver com o também divertido Jumanji: Bem-vindo à selva e ou o enfadonho Jogador nº.1. A sua plataforma é de outro nível. A sua pegada é mais adulta e bem mais ousada, ao brincar de brincar com a metalinguagem cinematográfica, fazendo inesquecíveis citações de atores, personagens e cenas de filmes de ação e violência. E mais, além de não subestimar a inteligência do espectador, a sua trama perspicaz consegue a proeza de iludir o público (sobre o que é real ou falso) até o final da narrativa. (Não assista ao trailer!!!)


Despretensiosa e instigante, A Noite do Jogo, com suas histórias entranhadas umas nas outras, é uma comédia de erros que funciona não apenas pela engenhosidade do roteiro, mas por envolver prazerosamente o espectador em uma trama irretocável.., até mesmo a cenografia é um trunfo. Fazia um bom tempo que eu não ria tanto. O seu humor é genuíno e para todos os gostos: humor negro, humor bobo, humor chulo, humor pastelão, gags visuais geniais..., com sequências antológicas (de chorar de rir), como a da extração de uma bala.  (Não assista ao trailer!!!)


Enfim, quanto menos você souber do surpreendente enredo, maior a será a sua satisfação e muito mais intensa a sua imersão nessa história maluca e cheia de reviravoltas até a sequência final que acompanha os créditos. O elenco, que inclui Sharon Horgan, na pele de Sarah, a acompanhante da vez de Ryan, está afinadíssimo e pra lá de descontraído. Cada ator/personagem tem o seu tempo de brilho na tela, mas quem rouba todas as cenas é Jesse Plemons. Se gosta de uma comédia astuciosa e realmente engraçada, não perca. Ah, e o mais importante: Não assista ao trailer!!!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Crítica: Rampage: Destruição Total



Rampage: Destruição Total
por Joba Tridente

Para variar na ignorância, a primeira vez em que vi o cartaz de Rampage: Destruição Total, tendo em primeiro plano o Dwayne Johnson e logo atrás um gigantesco gorila, pensei tratar-se (já?) da prometida continuação do assim-assim (King) Kong: A Ilha da Caveira (2017)..., em que o símio enfrentará o Godzilla. Mas, para minha surpresa de néscio em games, o pôster era da adaptação do jogo homônimo (de que nunca tinha ouvido falar). Já que não me importa a origem, mas o itinerário e o final de uma trama que promete ação e aventura, arrisquei a cabine especial do filme. Isto posto, vamos ao play que interessa.


Rampage: Destruição Total, dirigido por Brad Peyton (que acertou em Como Cães e gatos - 2 e escorregou em Viagem 2: A Ilha Misteriosa e Terremoto - A Falha de San Andreas), acompanha a rotina de cuidados do sensível primatologista Davis Okoye (Dwayne Johnson) para com os símios de uma Reserva e a sua busca desenfreada por um antídoto para o gorila albino George (um animal extremamente inteligente e dócil), vítima de um experimento genético que o transformou em uma criatura corpulenta e feroz, colocando em risco a vida de todos ao seu redor. Nessa corrida contra o tempo, para salvar o seu amigo e para evitar uma catástrofe urbana, Davis, que confia mais nos primatas que nos humanos, unirá forças com a geneticista Kate Caldwell (Naomie Harris) e enfrentará a ira de um exército de militares imbecis (óbvio!) e o dúbio Agente Russell (Jeffrey Dean Morgan), que anda atrás de Claire Wyden (Malin Åkerman) e seu irmão Brett (Jake Lay), responsáveis pelo experimento ilegal que atingiu também um lobo e um crocodilo.
  

Indo atrás de informação sobre o Game Rampage, para conferir “referências”, a verdade é que, tirando a tradicional cultura norte-americana de destruição (também) arquitetônica em plataformas do gênero, a versão cinematográfica (para desespero dos fãs gamers?) é apenas levemente inspirada nos personagens destrutivos dos jogos Rampage (1986) e Rampage: Total Destruction (2006)..., onde o jogador controla cada um dos três monstros: George (gorila tipo King Kong), Lizzie (lagarto tipo Godzila) e Ralph (lobisomem gigante) - que são humanos mutantes: George era um homem de meia-idade, Lizzie, uma jovem, e Ralph, um idoso.

Diferente (?) dos bonequinhos George, Lizzie e Ralph, que eram humanos e viraram animais que incansavelmente destroem prédios em Las Vegas, os animais (gorila, lobo, crocodilo) do filme são animais mesmos, só que, modificados geneticamente e apenas o gorila tem nome (George). Os três se dirigirem à Chicago, não para destruir todos os edifícios que encontrarem pelo caminho (ainda que destruam tudo que encontram pela frente), mas porque são impelidos por um “chamado”. É nessa cidade que os três animais (instintivamente rivais) vão se defrontar com um inimigo em comum e com eles mesmos.


Em se tratando de Brad Peyton (discípulo de Roland Emmerich, o destruidor de mundos?), que está se aperfeiçoando no gênero catastrash (como visto em Terremoto), o público já sabe o que esperar. Não faltam militares ensandecidos com dedos nos gatilhos e no botão da “bomba mãe” (típico de todos os filmes de monstrengos e ou de aliens), toneladas de escombros, carros voando e aviões caindo, muitas mortes (sem sangue)..., cenas que, se reais, apavorariam. Mas Hollywood, aposta mesmo é no entretenimento infantojuvenil passageiro e então faz tais cenas parecerem engraçadas (ainda que indigestas), tamanho o exagero e a abundância de clichês. Concorrendo com essa gente endinheirada de Los Angeles, a Asylum (com sua inesgotável fonte de trash, que também serve aos hollywoodianos) vai acabar perdendo espaço. Será? Ah, e por falar em Asylum, olha, cala-te boca sobre o Mega Tubarão que vem por aí!


Enfim, embora Rampage: Destruição Total não vá muito além da mesmice do gênero catástrofe e considerando que (com a tacanha direção de atores) a performance do bom elenco beire a caricatura, o que não faz muita diferença, se você decididamente não levar o filme a sério, já que ele também não se leva; que mesmo o Dwayne Johnson (divertidíssimo em Jumanji - Bem-Vindo à Selva), ator-fetiche de Brad Peyton (que o coloca sempre em primeiro plano, destacando o seu tamanho desproporcional em relação ao elenco) poderia render bem mais; achando que nem todas as piadas funcionam (embora tenha rido um bocado), mas que tem gags visuais ótimas (a cartunesca do George com a empresária Claire Wyden, no final, é muito legal); levando em conta que quem rouba todas as cenas é o devastador trio de animais (em razoável CGI) e que, diferente de O Jogador N.º 1, não tem cara de filme-game e é bem mais engraçado..., talvez por se tão alucinantemente bobo e flertar tão acintosamente com o trash (da Asylum), procurando não me importar com o indefectível culto bélico estadunidense, acabei gostando desse entretenimento infantojuvenil divertido e descartável. Ainda que o violentíssimo grande final (e único possível?) não deixe (?) margem para continuação, adoraria ver o trio animalesco se pegando novamente em filme solo...

Dica: Não espere nada mais que diversão passageira com bom humor (às vezes involuntário)! Caso contrário, o seu mau humor vai sobrar até pro game, que como já disse, aqui só está de passagem (ou seria: de paisagem?)


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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