quarta-feira, 16 de maio de 2018

Crítica: Deadpool 2


Deadpool 2
por Joba Tridente

No campo das artes, o sucesso por ser imprevisível. Nem sempre as grandes apostas acompanham as grandes promessas. Se na área da música o fardo é pesado, no cinema pode até encerrar carreiras de estrelas prodígios. Na era do bigue-bangue hollywoodiano que catapultou o Universo Marvel para além das revistas de histórias em quadrinhos e vem desvelando galáxias para que também o Universo DC tenha oxigênio para os seus balõezinhos um tanto sombrios, a vida de herói e ou anti-herói na telona nem sempre é garantia de perenidade quanto aquela das páginas de um gibi. Também porque não tem a menor ideia de que recorte da sua vida irá viver na cinebiografia.

Às vezes, de onde menos se espera, aparecem algumas pérolas: Guardiões da Galáxia, Mulher Maravilha, Pantera Negra, Homem-Formiga, por exemplo. De outras, onde mais se aposta: Esquadrão Suicida, O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça, por exemplo, vem o pedregulho. Roteiro, direção, carisma de personagens e atores, tudo influi, tudo flui para o sucesso e ou para o fracasso no giro da roleta nas mãos do espectador juvenil (que gosta de qualquer coisa em movimento) e ou do espectador adulto um pouco mais exigente na diversão.


Dois anos depois de estourar a boca do balão com Deadpool, o desbocado, safado e irônico Wade Wilson/Deadpool (Ryan Reynolds), o metalinguístico personagem dos quadrinhos Marvel, está de volta às telonas com Deadpool 2 (Deadpool 2, 2018) com a mesma irreverência para enfrentar Cable (Josh Brolin) um soldado do futuro que viaja no tempo para exterminar Russell/Firefist (Julian Dennison), um adolescente poderoso e descontente com o tratamento que recebe do rígido diretor (Eddie Marsan) do reformatório para jovens mutantes Broadstone House. Para enfrentar este caçador implacável, Deadpool vai criar o seu próprio grupo de heróis, o X-Force, que conta, entre outros pretendentes ao ofício, com a ágil sortuda Domino (Zazie Beets). Também retornam para abrilhantar este fumegante capítulo: Vanessa (Morena Baccarin), a namorada de Wade Wilson; o taxista Dopinter (Karan Soni); o barman Weasel (TJ Miller) e os mutantes “X”: Colossus (voz de Stefan Kapicic) e Negasi Teenage Warhead (Brianna Hildebrand).


Ao dizer que Deadpool 2 é um filme família, Deadpool não está necessariamente falseando a verdade, fazendo um chiste, porque, do seu conturbado ponto de vista e sem levar em conta a sua atividade de risco, ele está bem mexido com a ideia de um lar pra chamar de seu e até mesmo sonha com filhos. Toda via da violência e pancadaria, no entanto, para um mercenário (ainda que imortal) com a sua folha corrida, a lua de mel com o amor da sua vida pode se tornar uma lua de fel. Tudo é uma questão de trabalho e ou de tempo.

Quem assistiu ao filme anterior (fã ou não do anti-herói) e sabe do potencial do personagem e de suas incômodas idiossincrasias não vai se preocupar ou se horrorizar com seus atos insanos, já que o tresloucado Deadpool continua cumprindo à risca a sua sina de não dar trégua a bandido. Já o espectador de primeiro contato pode se incomodar um pouco com alguma cena ou diálogo..., mas nada que o faça sair da sala. Pois, passado o “susto” diante de situações esdrúxulas e sanguinolentas (exaustivamente exploradas em games, em filmes de heróis e em telejornais), vai se divertir e rir um bocado dessa paródia que, se forçar comparação, é bem mais “leve” que a anterior.


Deadpool 2 mantém ligada a chave de impropérios do personagem, quase que do princípio ao fim. Estão lá (a cada cena) as tiradas espirituosas e ou sacanas, as citações de filmes como Yentl (1983) e Instinto Assassino (1992), por exemplo, que a maioria do público jovem deve desconhecer, e de obras mais recentes (que não vou citar por conta de spoiler), a azaração com os personagens da DC e da própria Marvel. Quando ao humor, há piadas e gags para todos os gostos, apelos e compreensão, por isso alguma coisa é capaz de passar batida e ou não terá a menor graça..., principalmente aquelas de humor negro (que nem todo mundo entende). A mim, toda a sequência de formação e ataque da X-Force é sensacional, com destaque para o antológico salto de paraquedas da equipe, principalmente por causa de um detalhe genial (nada de spoiler!). Bem, também tem a inimaginável e hilária sequência de crescimento de partes faltantes de Deadpool..., só vendo pra crer!


Enfim, pra variar, não dá pra falar muito de Deadpool 2, sem cometer spoiler. Portanto..., considerando a eficiência do roteiro (sem enrolação) de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds; a excelente direção e ótima coreografia de luta de David Leitch; o notável desempenho do elenco, com Reynolds arrasando novamente, na boa companhia de Brolin e Beets (que rouba um bocado de cenas)..., a nova aventura do falastrão Deadpool, embora tenha um certo ar de melancolia e um “discurso” até catártico sobre a morte e ou o morrer (nada que aborreça o espectador), é diversão certa para quem já se acostumou com esse universo de heróis de HQ em cenas desenfreadas (ôps!) de ação gore-alucinante. Não fica nada a dever ao filme original.

Ah, tem duas cenas durante os créditos finais. Segundo informações na Wikipedia, é improvável um Deadpool 3, já que a intenção da Disney/Marvel é investir em X-Force. Mas, sabe como é, nesse mundo onde a bilheteria é o fiel da balança dos produtores...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Crítica: A Noite do Jogo


A Noite do Jogo
por Joba Tridente

O cinema é feito de grandes e pequenos prazeres..., e também de prazer nenhum. E nem sempre é questão de estado de espírito durante a sessão. Tem mesmo a ver com argumento, roteiro, elenco e direção, que somente em mãos certas são eficazes. Como é o caso da sensacional comédia A Noite do Jogo (Game Night, 2018).


A Noite do Jogo é uma deliciosa surpresa de qualidade cada vez mais rara no entretenimento humorístico hollywoodiano. A comédia adulta e excêntrica, protagonizada por um elenco notável, ótimo roteiro de Mark Perez e brilhante direção da dupla John Francis Daley e Jonathan Goldstein, gira ao redor de um grupo de amigos que semanalmente se encontra para se divertir com jogos de tabuleiro e também comer salgadinhos, bebericar e jogar conversa fora. 

No entanto, a noitada tranquila..., que sempre acontece na casa do romântico casal Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams), para onde se dirigem Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury), também casados, e o tolo Ryan (Billy Magnussen) com suas namoradas, ocasião em que o estranho vizinho policial Gary (Jesse Plemons) é propositadamente esquecido..., está prestes a mudar, com a chegada de Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais bonito, mais empreendedor e mais bem sucedido de Max, propondo um jogo inédito valendo o seu belo Corvette Stingray. A proposta de Brook é simular o sequestro de um dos participantes, deixando pistas pela casa. Porém, assim que ele acontece, a confusão está armada, já que nem tudo é o que parece, tanto para os personagens quanto para o espectador, nessa trama inteligente e hilária envolvendo máfia, bandidos, policiais, atores e pessoas comuns se divertindo em busca de um prêmio. (Não assista ao trailer!!!)


É bom lembrar que, com sua bem dosada mistura de comédia de erros com thriller, excelente ritmo e ação alucinada (na maior parte) pastelão, A Noite do Jogo tem nada a ver com o também divertido Jumanji: Bem-vindo à selva e ou o enfadonho Jogador nº.1. A sua plataforma é de outro nível. A sua pegada é mais adulta e bem mais ousada, ao brincar de brincar com a metalinguagem cinematográfica, fazendo inesquecíveis citações de atores, personagens e cenas de filmes de ação e violência. E mais, além de não subestimar a inteligência do espectador, a sua trama perspicaz consegue a proeza de iludir o público (sobre o que é real ou falso) até o final da narrativa. (Não assista ao trailer!!!)


Despretensiosa e instigante, A Noite do Jogo, com suas histórias entranhadas umas nas outras, é uma comédia de erros que funciona não apenas pela engenhosidade do roteiro, mas por envolver prazerosamente o espectador em uma trama irretocável.., até mesmo a cenografia é um trunfo. Fazia um bom tempo que eu não ria tanto. O seu humor é genuíno e para todos os gostos: humor negro, humor bobo, humor chulo, humor pastelão, gags visuais geniais..., com sequências antológicas (de chorar de rir), como a da extração de uma bala.  (Não assista ao trailer!!!)


Enfim, quanto menos você souber do surpreendente enredo, maior a será a sua satisfação e muito mais intensa a sua imersão nessa história maluca e cheia de reviravoltas até a sequência final que acompanha os créditos. O elenco, que inclui Sharon Horgan, na pele de Sarah, a acompanhante da vez de Ryan, está afinadíssimo e pra lá de descontraído. Cada ator/personagem tem o seu tempo de brilho na tela, mas quem rouba todas as cenas é Jesse Plemons. Se gosta de uma comédia astuciosa e realmente engraçada, não perca. Ah, e o mais importante: Não assista ao trailer!!!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Crítica: Rampage: Destruição Total



Rampage: Destruição Total
por Joba Tridente

Para variar na ignorância, a primeira vez em que vi o cartaz de Rampage: Destruição Total, tendo em primeiro plano o Dwayne Johnson e logo atrás um gigantesco gorila, pensei tratar-se (já?) da prometida continuação do assim-assim (King) Kong: A Ilha da Caveira (2017)..., em que o símio enfrentará o Godzilla. Mas, para minha surpresa de néscio em games, o pôster era da adaptação do jogo homônimo (de que nunca tinha ouvido falar). Já que não me importa a origem, mas o itinerário e o final de uma trama que promete ação e aventura, arrisquei a cabine especial do filme. Isto posto, vamos ao play que interessa.


Rampage: Destruição Total, dirigido por Brad Peyton (que acertou em Como Cães e gatos - 2 e escorregou em Viagem 2: A Ilha Misteriosa e Terremoto - A Falha de San Andreas), acompanha a rotina de cuidados do sensível primatologista Davis Okoye (Dwayne Johnson) para com os símios de uma Reserva e a sua busca desenfreada por um antídoto para o gorila albino George (um animal extremamente inteligente e dócil), vítima de um experimento genético que o transformou em uma criatura corpulenta e feroz, colocando em risco a vida de todos ao seu redor. Nessa corrida contra o tempo, para salvar o seu amigo e para evitar uma catástrofe urbana, Davis, que confia mais nos primatas que nos humanos, unirá forças com a geneticista Kate Caldwell (Naomie Harris) e enfrentará a ira de um exército de militares imbecis (óbvio!) e o dúbio Agente Russell (Jeffrey Dean Morgan), que anda atrás de Claire Wyden (Malin Åkerman) e seu irmão Brett (Jake Lay), responsáveis pelo experimento ilegal que atingiu também um lobo e um crocodilo.
  

Indo atrás de informação sobre o Game Rampage, para conferir “referências”, a verdade é que, tirando a tradicional cultura norte-americana de destruição (também) arquitetônica em plataformas do gênero, a versão cinematográfica (para desespero dos fãs gamers?) é apenas levemente inspirada nos personagens destrutivos dos jogos Rampage (1986) e Rampage: Total Destruction (2006)..., onde o jogador controla cada um dos três monstros: George (gorila tipo King Kong), Lizzie (lagarto tipo Godzila) e Ralph (lobisomem gigante) - que são humanos mutantes: George era um homem de meia-idade, Lizzie, uma jovem, e Ralph, um idoso.

Diferente (?) dos bonequinhos George, Lizzie e Ralph, que eram humanos e viraram animais que incansavelmente destroem prédios em Las Vegas, os animais (gorila, lobo, crocodilo) do filme são animais mesmos, só que, modificados geneticamente e apenas o gorila tem nome (George). Os três se dirigirem à Chicago, não para destruir todos os edifícios que encontrarem pelo caminho (ainda que destruam tudo que encontram pela frente), mas porque são impelidos por um “chamado”. É nessa cidade que os três animais (instintivamente rivais) vão se defrontar com um inimigo em comum e com eles mesmos.


Em se tratando de Brad Peyton (discípulo de Roland Emmerich, o destruidor de mundos?), que está se aperfeiçoando no gênero catastrash (como visto em Terremoto), o público já sabe o que esperar. Não faltam militares ensandecidos com dedos nos gatilhos e no botão da “bomba mãe” (típico de todos os filmes de monstrengos e ou de aliens), toneladas de escombros, carros voando e aviões caindo, muitas mortes (sem sangue)..., cenas que, se reais, apavorariam. Mas Hollywood, aposta mesmo é no entretenimento infantojuvenil passageiro e então faz tais cenas parecerem engraçadas (ainda que indigestas), tamanho o exagero e a abundância de clichês. Concorrendo com essa gente endinheirada de Los Angeles, a Asylum (com sua inesgotável fonte de trash, que também serve aos hollywoodianos) vai acabar perdendo espaço. Será? Ah, e por falar em Asylum, olha, cala-te boca sobre o Mega Tubarão que vem por aí!


Enfim, embora Rampage: Destruição Total não vá muito além da mesmice do gênero catástrofe e considerando que (com a tacanha direção de atores) a performance do bom elenco beire a caricatura, o que não faz muita diferença, se você decididamente não levar o filme a sério, já que ele também não se leva; que mesmo o Dwayne Johnson (divertidíssimo em Jumanji - Bem-Vindo à Selva), ator-fetiche de Brad Peyton (que o coloca sempre em primeiro plano, destacando o seu tamanho desproporcional em relação ao elenco) poderia render bem mais; achando que nem todas as piadas funcionam (embora tenha rido um bocado), mas que tem gags visuais ótimas (a cartunesca do George com a empresária Claire Wyden, no final, é muito legal); levando em conta que quem rouba todas as cenas é o devastador trio de animais (em razoável CGI) e que, diferente de O Jogador N.º 1, não tem cara de filme-game e é bem mais engraçado..., talvez por se tão alucinantemente bobo e flertar tão acintosamente com o trash (da Asylum), procurando não me importar com o indefectível culto bélico estadunidense, acabei gostando desse entretenimento infantojuvenil divertido e descartável. Ainda que o violentíssimo grande final (e único possível?) não deixe (?) margem para continuação, adoraria ver o trio animalesco se pegando novamente em filme solo...

Dica: Não espere nada mais que diversão passageira com bom humor (às vezes involuntário)! Caso contrário, o seu mau humor vai sobrar até pro game, que como já disse, aqui só está de passagem (ou seria: de paisagem?)


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 1 de abril de 2018

Crítica: O Homem das Cavernas


O Homem das Cavernas
por Joba Tridente*

Sempre que o estúdio britânico Aardman Animations anuncia mais uma animação (feita com massinha) a expectativa entre os cinéfilos é enorme, dada a inquestionável qualidade artística e de conteúdo das suas produções com adoráveis personagens bizarros (geralmente dentuços) e tiradas desconcertante do humor inglês. Para quem já nos presenteou com obras sensacionais em quadro a quadro (stop motion) como A Fuga das Galinhas (2000); Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (2006); Piratas Pirados (2012); Shaun, O Carneiro (2015); e em computação gráfica (CGI) como Por Água Abaixo (2006) e Operação Presente (2011) não parece ser difícil nos surpreender sempre que queira. Eis que, três anos após o bem sucedido lançamento do querido Shaun, aproveitando (?) a celeuma do Campeonato Mundial de Futebol FIFA de 2018, na Rússia, o estúdio nos traz uma inusitada peleja de futebol entre Homens das Cavernas e Homens da Idade do Bronze.


O Homem das Cavernas (Early Man, 2018), dirigido pelo premiadíssimo Nick Park (A Fuga das Galinhas Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais), a partir do roteiro redondinho e muito bem balanceado dos experientes Mark Burton e James Higginson, como já apregoei e ou você já deve ter visto (algumas das melhores cenas) nos reveladores trailers, trata-se de uma fantasia futebolística ocorrida nos primórdios da civilização, lá nos tempos de transição da Idade da Pedra para a Idade do Bronze, numa região próxima a Manchester inglesa.

Ali, numa verdejante cratera, vive o jovem visionário Dug, com seu esperto javali Hognob (que acha que é um cão), em uma pequena e desconexa tribo de Homens das Cavernas chefiada por Bobnar. Enquanto o corajoso Dug sonha em caçar mamutes, o medroso Chefe Bobnar se contenta com a caça ao coelho. Um dia esse adorável recanto ilhado é invadido por um exército celta da Idade do Bronze, liderado pelo ambicioso Lorde Nooth, e a tribo inglesa das cavernas é expulsa do seu paraíso. Cabe, então, a Dug, que casualmente vai parar na cidade dos bárbaros, encontrar um jeito de recuperar a terra da tribo. Ao descobrir que aquele povo agitado (que fala com sotaque francês, no original) cultua o futebol, e desconfiado de que foram os seus ancestrais que inventaram o jogo (num cena antológica com um icosaedro fumegante), o jovem propõe ao Lorde Nooth um neolítico jogo entre o Time de Bronze (celta) e o Time da Pedra (inglês), valendo a posse da cratera verdejante. O único porém é que, enquanto no time profissional dos celtas só tem estrelas, no time de Dug ninguém sabe jogar bola. Aí..., só assistindo pra saber o que rola nesse desafio (a não ser que já tenha visto aos, infelizmente, reveladores trailers!) e como termina esse Jogo das Eras.


A trama de O Homem das Cavernas é simples mas muito eficiente, principalmente porque seus realizadores nunca perdem a oportunidade de explorar gags relacionadas ao esporte bretão, ao poder da realeza e à política (de vizinhança europeia). Pra variar, na versão dublada brasileira, parte do humor inglês ficou pelo caminho junto com a ironia dos celtas (indo-europeus), que por aqui (sabe se lá por quê!) viraram espanhóis (será que na Espanha vão virar brasileiros?). Portanto, o riso se dá mais graças às inúmeras gags visuais do que aos diálogos, onde nem sempre a piada em português funciona. E por falar em gag visual, fique atento aos nomes das barracas, anúncios e matérias jornalísticas na Cidade dos Bronzios.


O Homem das Cavernas..., cuja técnica de animação com massinha dá característica  charmosa e cartunesca aos personagens, além de detalhar com requinte os mínimos elementos de cena..., embora tenha lá a sua previsibilidade (para o público adulto) e apresente breves referências a Os Flintistones e Os Croods (no uso de tecnologia primitiva), diverte ao alfinetar os vaidosos jogadores individualistas e o sexismo esportivo, e também faz o espectador refletir ao considerar (com simpatia) o empoderamento e o discernimento feminino, nas figuras da futebolista Goona e da Rainha Oofeefa (dona de um pombo-correio hilário) e os benefícios de uma saudável vida campestre..


Enfim, levando em conta que é uma animação sincera e que toda essa divertidíssima maravilha ocupou por cerca de três anos os seus realizadores; que a sua mensagem sobre coletividade, respeito aos acordos estabelecidos e punição ao desvio de conduta (corrupção) é direta e acessível a todas as idades, e passa longe da pieguice, da lição de moral e da violência gratuita (vista em produções infantis recentes como Pedro Coelho); que todos os seus personagens são muito simpáticos (bem desenvolvidos) e nenhum deles canta uma aborrecida musiquinha da moda a cada cinco minutos; que há sequências geniais, como a da primeira caça ao coelho, a do javali Hognob nas dependências do Lorde Nooth e aquela (que deve ter dado muito trabalho!) do empolgante jogo de futebol..., é difícil não gostar de O Homem das Cavernas que cumpre o que promete: (nada mais que) diversão espetacular para toda a família.  Ou como diriam os amantes do futebol: Show de Bola!!!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Crítica: Jogador N.º 1



Jogador N.º 1
por Joba Tridente*

Steven Spielberg é um diretor que ao longo de sua carreira vem alternando com naturalidade, mas nem sempre com a mesma qualidade, a direção de dramas e dramalhões (para adultos) com a direção de filmes de ação e aventura com pitadas de suspense e mistério (para jovens de todas as idades) que, a mim, é onde se sai melhor. Da sua verve melodramática, cito apenas Lincoln (2012) e The Post - A Guerra Secreta (2017). Já da fase mais divertida gosto da grande maioria, com alguma ressalva.

Jogador N.º 1 (Ready Player One, 2018), baseado no romance de ficção científica homônimo de Ernest Cline, do qual só li a sinopse que se desvela diferente do filme roteirizado pelo autor e Zak Penn, é uma experiência visual e tanto. A história catastrofista, situada em 2045, apresenta uma parcela dos norte-americanos enfrentando crise energética sem precedentes. Sinais de pobreza são visíveis na periferia de Columbus, Ohio, onde proliferam as favelas (ou pilhas) de contêineres que servem de moradia aos mais miseráveis. Em vez dos androides/replicantes de Blade Runner, perambulando pelas ruas e interagindo com humanos, encontramos pessoas manipuladas por um programa de realidade virtual inspirado na cultura pop dos anos 1980/1990, chamado OASIS, criado pelo visionário James Halliday (Mark Rylance), com uma multiplataforma onde os obcecados jogadores podem jogar, estudar, trabalhar, viajar por mundos além da imaginação..., e assim “esquecer” ou camuflar os dissabores da vida.


Com a morte de Halliday, a nova onda dos viciados usuários é colocar os seus avatares à caça de três chaves especiais, escondidas no hipnotizante mundo virtual, que darão ao vencedor humano o prêmio Easter Egg (Ovo de Páscoa) e o direito a todos os bens do criador do jogo eletrônico, incluindo o controle do OASIS, conforme seu testamento. Nessa alucinante e alucinada caça ao tesouro trilionário, aos modos do clássico Deu a Louca no Mundo (1963), de Stanley Kramer, encontramos o time da “utopia”, formado por Wade Watts/Parzival (Tye Sheridan), Art3mis (Olivia Cooke), Aech (Lena Waithe), Daito (Win Morisaki) e Shoto (Philip Zhao), e o time da “distopia”: Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), CEO da “Division Oology” na Innovative Online Industries (IOI), e seu “exército” de nerds e geeks e gamers.

Jogador N.º 1, dirigido com empenho por Steven Spielberg, é uma inebriante viagem retrô por uma montanha russa com mais de duas horas de trilhos em rota de colisão com personagens e objetos (de desejos) populares de videogames, música e filmes dos anos 1980/1990. Acredito que o grande público (alvo) adolescente não tem o menor conhecimento da maioria deles..., não que faça alguma diferença para se acompanhar (com interesse e ou enfado) a peleja dos avatares protagonistas com os enlouquecidos obstáculos. Talvez por isso algumas cenas-referências, como a do Hotel Overlook (de O Iluminado, do Stanley Kubrick, 1980), são bem explicadinhas.


Ah, é bom saber que a quase totalidade desses “saudosistas” encontros ou topadas com trocentos personagens são tão rápidos (e toscos) que se o espectador piscar já era. O que também não faz a menor diferença na história reconhecer algum personagem que atravessa a tela feito o The Flash e ou agir como se estivesse à procura de Wally, da série de livros infantojuvenis Onde está o Wally (1987), ilustradas pelo britânico Martin Handford.

Excetuando os personagens e as coisas realmente mais célebres, o que se “vê” são bandos de coadjuvantes estranhos que, no máximo, valem um risinho e uma cutucada no amigo ao lado. As sequências pouco maiores trazem ícones como o Robô Gigante (de O Gigante de Ferro, do Brad Bird, 1999), já visto no trailer, e outros muito mais populares, até mesmo de Spielberg, que seria sacanagem revelar aqui. Provavelmente, depois de ouvir falar em Buckaroo Banzai, você vai querer assistir ao cultuado filme de ficção científica As Aventuras de Buckaroo Banzai (1984), de W.D. Richter.


Jogador N.º 1 é um bom filme-passatempo. Esteticamente é bonito, mas deve empolgar mais a quem tem intimidade com games e fica na torcida dos jogadores profissionais em campeonatos de jogos eletrônicos tão em voga..., ou a quem se basta com um fiapo de trama (clichê) que vai desfiando ao longo da narrativa até sobrar nada ao se deixar a sala de cinema. É uma pena que o roteiro (raso e escapista) não vá além da aventura virtual de um grupo de jovens ambiciosos contra um grupo de empresários ambiciosos na caça de um tesouro que pode livrar o primeiro de uma vida miserável (mas não do aprisionamento à tecnologia virtual) e dar ao segundo o controle mundial de um lucrativo jogo virtual viciante. O curioso é que, embora seja um filme juvenil que transpira a moral spielberguiana, não há jornada do herói de nenhum dos adolescentes na disputa de inteligência (artificial e humana).


Enfim, considerando que, tecnicamente, em sua mistura de atuação real (20%?) com animação (80%?), Jogador N.º 1 utiliza o que há de mais atual em CGI fotorrealista, aproximando-o, em efeitos especiais, ao Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017); que o elenco de atores é eficiente (com destaque para Mark Rylance, entre os humanos, e i-Rok entre os avatares animados) e dá conta dos seus limitados personagens; que o tradicional relacionamento traumático entre pai e filho, está em cena, mas (felizmente!) de forma bastante subjetiva  e metafórica; que tem algumas músicas bacaninhas; que carece de humor (só ri amarelo duas vezes!) e a ação praticamente contínua pode cansar quem não é um gamer..., levando se em conta que é um filme de ficção científica (bem) infantojuvenil repleto de ação e aventura da grife Spielberg, diretor que, por mais redundante que possa parecer, ainda satisfaz às expectativas de muitos fãs adultos, se gosta do gênero fantasia e ação, vá e tire as suas próprias conclusões. As minhas (com alguma rabugice) são apenas mais umas entre dezenas de considerações críticas mundo afora!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 25 de março de 2018

Crítica: Madame



MADAME
por Joba Tridente*

Temas sociais, no cinema, podem ser tão interessantes e reflexivos, quanto irritantes, principalmente se (tão somente) partidários. Depende muito da linguagem, da intensidade do roteiro, da amplidão do contexto, do direcionamento e coerência do discurso. O cinema de mim pra mim mesmo, que só fala para iguais claudica e estaca pouco além de sua aldeia, sobretudo se maniqueísta. Para dialogar com o inimigo (?) faz-se necessário um bom jogo de cintura, flexibilidade, no mínimo, razoável..., e uma boa dose de humor (preferencialmente humor negro e jamais humor grosseiro). Pois, se apreende muito mais com mensagem subliminar do que com semente de abacate goela abaixo.

Madame (Madame, 2018), filme francês (em língua inglesa), dirigido por Amanda Sthers, escritora, dramaturga, roteirista e cineasta francesa, na sua segunda incursão no cinema (estreou em 2009, com Je vais te manquer), traz a público uma curiosa crônica de costumes burgueses contemporâneos (?). Uma sátira social saborosamente meditativa e aparentemente leve, em sua pluralidade multicultural. Um conto de princesa, abóbora e ratazanas.


Era uma vez... Numa vistosa casa em Paris, o rico casal americano Anne (Toni Collete) e Bob (Harvey Keitel) passa uma temporada de luxo. Ali, a vida corre às mil maravilhas entre patrões ostensivos e empregados invisíveis. Cada um sabe exatamente o papel que lhe cabe e principalmente a sua posição no tabuleiro de xadrez do mercado capitalista que “gera” oportunidades de trabalho para imigrantes. Diz o senso que patrão manda e empregado acata. Certo? Bem, hoje em dia (?) há controvérsias!

O casamento de madame Anne não está assim um donuts..., tampouco as finanças de Bob, mas a aparência é tudo, principalmente em Paris. Levado a negociar uma Santa Ceia de Caravaggio, para honrar compromissos, o casal decide oferecer um suntuoso jantar para um seleto grupo de 12 amigos europeus, entre eles o negociante de arte britânico David Morgan (Michael Smiley). Porém, toda via do azar com suas encruzilhadas, o alcoólatra e escritor (ou vice-versa) Steven (Tom Hughes), filho do primeiro casamento de Bob, aparece de surpresa e o pai o convida para esse encontro de celebridades. A supersticiosa Anne, ansiosa para resolver a tragédia do fatídico número de “13 de convidados” e sem tempo para mais um convite, decide transformar a sua governanta Maria (Rossy de Palma, a musa de Pedro Almodóvar, Jean-Paul Gaultier e Thierry Mugler), de pessoa simples a misteriosa e nobre espanhola, para compor o grupo..., com a recomendação dela beber e falar o mínimo.


Mas..., assim como na origem da crendice que azara o número 13, na Mitologia Nórdica, envolvendo o Deus da Trapaça Loki, como o 13º convidado que entrou de penetra num Banquete Celestial para 12 e provocou a morte de Balder, o Deus da Paz..., querendo fazer gracejo e ou tirar proveito da situação ridícula, o insolente Steven insinua para David, atraído pelo porte picassiano de Maria, os títulos e riquezas dela na Espanha. Daí que, antes que se dê conta do que está acontecendo, para desespero da maquiavélica Anne, a governanta (temporariamente promovida a nobre) Maria começa a namorar o apaixonado David. É claro que, como em todo bom Conto de Fadas, a invejosa madame real fará de tudo para acabar com a felicidade romântica da inocente madame forjada. Porém, até mesmo em um conto de princesa e príncipe de meia idade, quando se joga com o Destino, só após a cartada final se sabe quem fica e quem deixa a mesa. Estão abertas as apostas!


Madame fala (com muita propriedade) da tênue linha que liga a submissão à opressão funcional, por onde se equilibram os empregados domésticos (sujeitos às contingências dos patrões). O disfarce que “iguala” classes sociais diferentes, dando também status de madame a uma mera governanta imigrante, não vem de uma oportunidade, de uma brincadeira de ocasião (enquanto a patroa não vem), mas de um imposição social da senhoria...,  e se continua, é por mera dependência capital da burguesia despudorada capaz dos piores golpes para satisfazer seus desejos pessoais e materiais. Quanto ao imbróglio que enreda e amordaça a gentil Maria, embora no desenrolar da trama se saiba das reais intenções do trapaceiro Steven ao ampliar a farsa da misteriosa espanhola, a profundidade alcançada pela flecha da mentira no coração de David é incerta. Ainda que na bela sequência final (após a tormenta - numa metáfora arrepiante - a bonança parecer subjetiva) ele dê uma dica.

Se você é um cinéfilo e chegou até aqui, provavelmente está pensando que já viu alguma história (de Cinderela por um dia) parecida no cinema e ou na tv. É possível, ao menos na “troca” de identidade. O que difere e distingue a curiosa trama de Madame daquelas em filmes melodramáticos, onde personagens femininas simplórias oportunamente vasculham o guarda-roupas da patroa, se disfarçam (por diversão) em pessoas de classe alta e vivem um bela história de amor (“com beijo na chuva e final feliz”), é o modo como Amanda Sthers escancara a relação de aparência (“Ela é da família!”) entre empregados (invisíveis) e patrões (ostensivos), sem fazer alarde. Afinal “gente fina”, no alto da sua mentalidade burguesa, não gosta de escândalo..., porque expõe as suas mazelas cuidadosamente maquiadas.


Na arte, cada espectador absorve aquilo que o satisfaz (ou o entretém). Desse modo, o que me pareceu grandioso em Madame, pode ser repelido por um espectador que “esperava mais do discurso social” e ou ficou insatisfeito com o nível dos diálogos ácidos servidos em pratos salpicados de racismo e gotas de sexismo com pinceladas de assédio, no refinado banquete. Que me desculpem os críticos adeptos do politicamente correto, não dá pra se sentir ofendido diante de um cardápio que troça igualmente do estereótipo (?) dos norte-americanos, dos britânicos, dos franceses, dos irlandeses, dos espanhóis... Ah, o modus vivendi de cada um, que nos aproxima e nos distancia na “aldeia global”. A cada dia é mais difícil saber (ou traduzir!) o que é idiossincrasia e o que é hipocrisia étnico-racial.


Por conta do roteiro conciso de Sthers e Matthew Robbins, a narrativa (onde menos é bem mais do que se vê e ou se lê), em algum momento, pode dar a impressão de irregularidade no desenvolvimento dos arcos paralelos e mesmo dos personagens. Mas são pontos irrelevantes, meramente reforços ilustrativos (até descartáveis) que não influem na essência do enredo elegante e divertido que nos faz refletir sobre a fragilidade das relações sociais (nem sempre humanas).

Enfim, com sua narrativa bem humorada (às vezes melancólica, é verdade) que não exige do público nenhuma formação em sociologia ou antropologia para entender e ou se ver nas entrelinhas, Madame, que traz a expressiva Rossy de Palma roubando as cenas do excelente elenco, faz valer o seu ingresso pela cadência com que apresenta o desenrolar de uma história social (crítica na abordagem do racismo, da relação de trabalho doméstico, do sexo de conveniência) de forma direta, sem ranço de tese acadêmica partidária. Não é nenhuma obra-prima e muito menos o filme definitivo sobre o assunto, mas, com certeza, dá muito o quê pensar e discutir após a sessão..., inclusive sobre alguns achados (sombra e luz) técnicos!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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