domingo, 18 de fevereiro de 2018

Crítica: Trama Fantasma



Trama Fantasma
por Joba Tridente*

O mundo da moda que já rendeu obras cinematográficas relevantes, como Prêt-à-Porter, de Robert Altman (1925-2006), ou no mínimo instigantes, como O Diabo Veste Prada, de David Frankel, ambas de certo modo divertidas no humor negro e no de amenidades, agora abre as cortinas da passarela para o mistério e a introspecção em Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017), de Paul Thomas Anderson (Magnólia e Sangue Negro)


Produzido, roteirizado, fotografado e dirigido por Paul Thomas Anderson (Vício Inerente e O Mestre), o melancólico drama romântico Trama Fantasma, ao contrário do que possa sugerir o título, não é um filme de terror, ao menos nos moldes tradicionais, embora a ação e a reação de seus personagens egocêntricos e obsessivos compulsivos provoquem algum temor, encerrando um clima de suspense. O fantasma em questão tem mais a ver com a vaidade de quem produz moda exclusiva e a fraqueza de quem tem o privilégio de ostentar a grife.

É nesse mundo de aparências (e alguns segredos) que transita o meticuloso designer de moda britânico Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) que veste a realeza e a elite europeia. Discípulo do costureiro inglês Charles Frederick Worth (1825-1895), o "pai da alta-costura” e dos desfiles de moda com modelos, Woodcock não deixa coisa alguma sobrepor a sua devoção à costura e ou perturbar seu ato de criação..., nem mesmo os amores ocasionais. Para tanto ele conta com a dedicação exclusiva da sua quase silenciosa irmã Cyril (Lesley Manville) na administração da casa e da sua vida “amorosa”.


Em Londres de 1950, onde se desenrola a tessitura desse conto (quase gótico) bordado com glamour entremeado de pontos de amargura, o egoísta Woodcock, que não assimilou a onda do prêt-à-porter e sequer o significado de chiqué na moda do pós-guerra, leva uma vida de galo-rei, sempre no centro das atenções e objeto de desejo das mulheres descartáveis. Toda via dos alfinetes e alinhavos, no entanto, ao conhecer a bela e insinuante garçonete Alma (Vicky Krieps), numa cidadezinha interiorana, ele vai ter de rever seus conceitos de descarte fácil de amores ocasionais. Porém, enquanto não se dá conta do nível das suas loucas obsessões, resta ao casal saber quem domará e moldará quem a seu gosto no desfile prazeroso e subserviente da objetificação onde competem a mulher funcional e o homem ideal.


Entre o previsível e o surpreendente num relacionamento amorosamente doentio do trio Woodcock/Cyril/Alma, onde não faltam humilhação, machismo e feminismo, Trama Fantasma não se furta a desvelar também, através de uma fotografia detalhista e diálogos por vezes ácidos, os bastidores e o palco das ilusões de um circuito fashion em que executores e consumidores de moda desconhecem a palavra crise econômica e tampouco sabem lidar com a crise de identidade. É num desses maquiavélicos recortes de crise de identidade, envolvendo a dama do high society Barbara Rose (Harriet Sansom Harris, inesquecível), que está a sua melhor e mais incômoda sequência. Na dor mais profunda, a cor é verde esmeralda. Há, sem dúvida, outras sequências notáveis, inclusive sombrias, já que o elenco protagonista é excepcional e o script muito bom, mas nenhuma se compara a esta que é de uma tristeza absurda.  


Enfim, com seu clima de thriller psicológico e de romance desesperado; performances maravilhosas: Daniel Day-Lewis, num irretocável canto do cisne, Lesley Manville, magnética e Vicky Krieps, encantadora; roteiro e direção excelentes; cenografia minimalista (por vezes claustrofóbica) e fotografia impressionante no detalhamento da Casa de Costura, com sua estreita escada em caracol que obriga funcionárias e clientes a escalá-la para chegar ao celestial atelier de criação do deus da alta-costura Woodcock e então comungar com suas vestes divinas, bem como do registro da dança de mãos e dedos ressecados na artesania do corte e da costura na constância de agulhas e linhas; a delicadeza clássica nas pontuações musicais de Jonny Greenwood (Radiohead)..., Trama Fantasma, do prolixo Paul Thomas Anderson, embora me pareça se estender (assim como seus filmes anteriores) além da metragem ideal e possa provocar algum bocejo, é um obra magnífica!


Trama Fantasma recebeu seis indicações ao Oscar 2018: Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante, Trilha Sonora e Figurino.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Crítica: Viva - A Vida é uma Festa



Viva - A Vida é uma Festa
por Joba Tridente*

Em 2014, quando pesquisava material para escrever sobre a belíssima animação Festa no Céu (The Book of Life), produzida por Guillermo del Toro e dirigida por Jorge R. Gutierrez, descobri que em 2013 a produtora mexicana Metacube Technology & Entertainment venceu um processo contra a Pixar Animation Studios pelo direito ao título Dia de Muertos, que a empresa da Disney Company pretendia usar em sua produção prevista para 2015. A produtora Metacube, sediada em Guadalajara, já vinha trabalhando há 10 anos no longa-metragem de animação Dia de los Muertos, La Película, que mudou o título para Dia de Muertos - La Leyenda Original... e ficou mesmo apenas Día de Muertos, cuja estreia estava marcada para outubro de 2017, mas, por causa do lançamento de Coco (Viva – A Vida é uma Festa), da Pixar, foi adiado para novembro de 2018..., leia em  Disney una sombra para Día de muertos e 'Día de Muertos': la película 100% mexicana que nació antes que 'Coco' y será eclipsada por Disney e Cinta mexicana 'Día de Muertos' aplazó su estreno por 'Coco'

E já que estou falando de temática mexicana, veja os excelentes curtas Hasta Los Huesos, do premiado animador René Castillo (2001), que inspirou Tim Burton em A Noiva Cadáver e Dia de los Muertos (2013), que não é mexicano mas é muito bonito. Haja muertos para tanta animación!’’


Bem, o tal filme da Pixar, esperado para 2015 e lançado em 2017, como já disse acima, é Coco, que no Brasil (talvez para evitar gracejos com “coco”, a fruta, “coco”, a dança, e ou “cocô”, o excremento) recebeu o título de Viva - A Vida é uma Festa..., uma animação que dialoga muito com Festa no Céu (2014), através de seus protagonistas que amam a música, mas são forçados, por suas famílias, a exercerem outra profissão: (Manolo Sanchez) toureador e (Miguel Rivera) sapateiro. Porém, na questão cultural, enquanto Festa no Céu, assim como o recente O Touro Ferdinando, levanta a bandeira de protesto contra a violência nas touradas e a matança de bois na arena, Viva - A Vida é uma Festa trata (ironicamente?) de direitos autorais, do resgate da dignidade de um músico e a paz de espírito de uma rancorosa família (Rivera) com o fim de uma história de amor no passado. É certo que a futura animação mexicana Día de Muertos também dialogue com os dois anteriores ao se debruçar sobre o rico folclore local. Afinal, como diz uma criança que ouve comovida a história da morte Manolo, em Festa no Céu: “Qual é a dos mexicanos com a morte?”.


Por motivos “diferentes” e artimanhas do destino, mas com a paixão em comum pela música, o romântico Manolo Sanchez, em Festa no Céu, e o jovem Miguel Rivera, em Viva - A Vida é uma Festa, vão parar no alegre mundo dos mortos lembrados e no triste mundo dos mortos esquecidos onde, além de seus finados parentes, encontram a força necessária para suas realizações pessoais no diverso mundo dos vivos. Cada trama com sua tessitura: o apaixonado Manolo chega lá, em busca da sua amada Maria, porque foi traído e morto; o inocente Miguel atravessa o umbral por não saber da magia espiritual impregnada nos pertences dos mortos.

É interessante notar que, em ambas as produções, é forte a presença de mulheres em situação de empoderamento feminino e ou de matriarcado (nos dois lados da vida)..., bem como, entre outros detalhes curiosos e homenagem justa à cultura mexicana (nas viagens intramundos), vale ressaltar o fantástico encontro de Manolo com as irmãs Adelitas (participantes ativas da Revolução Mexicana) e de Miguel com a revolucionária artista Frida Khalo. 


O argumento de Viva - A Vida é uma Festa é o tradicional: um personagem em busca de um sonho e o pesadelo que será para realizá-lo, já que terá de enfrentar, entre outros dissabores, a própria família..., porque histórias de superação (protagonizadas por vivos ou mortos) funcionam com espectadores de qualquer idade. 

Embalado por excelente trilha sonora (que soa muito melhor em versão espanhola, como a Recuérdame (Remember Me) de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez, indicada ao Oscar 2018), o espectador acompanha a emocionante jornada do pequeno Miguel Rivera, um garoto adorável de 12 anos que nasceu para ser músico, de corpo e alma, e tem no ator e cantor Ernesto de la Cruz, o seu grande ídolo. Todavia, a paixão musical do menino não é compartilhada pela sua família matriarcal (de sapateiros), que acredita ser ela a responsável pela infelicidade de todos os membros do clã desde o dia em que o seu tataravô, que era cantor e compositor, foi embora de casa (para viver de música), abandonando a mulher Amélia e a filha pequenina Inês (a Coco). Por décadas foi assim na Família Rivera: cabeça baixa, na fazedura de calçados, e coração fechado para qualquer manifestação musical..., até o jovenzinho cheio de vida Miguel decidir quebrar a tradição e trilhar o seu próprio caminho.


Tradição familiar, que cerceia sonhos juvenis e provocam frustrações irreparáveis, e divagações sobre a morte (ou o pós-vida) não são temas fáceis de se tratar, principalmente quando o público alvo preferencial é a criança (ou jovem) em fase de formação, em fase de descoberta dos ganhos e das perdas na vida..., assuntos que Festa no Céu e Viva - A Vida é uma Festa tratam com naturalidade e segurança, sem exceder na dureza crítica (necessária) e ou se deixar seduzir pela pieguice moralizante (patrimonial). Assim, em um e outro desenho animado os protagonistas chegam ao final da jornada em paz com o passado e prontos para conquistar um futuro por mérito próprio.


Viva - A Vida é uma Festa é uma animação prazerosa, contagiante e nos presenteia ao menos com duas sequências antológicas: uma no mundo dos vivos (com Miguel e Coco) e outra no mundo dos esquecidos (com Miguel, Héctor, Chicharrón), favorecidas ainda mais com as canções-tema: Recuérdame e Juanita

Embora menos inventiva no enredo, na criação, cor e traçado gráfico de personagens que Festa no Céu (com seus deslumbrantes - e manipuláveis - bonecos de madeira e quinquilharias metálicas), mas não menos intensa, a animação Viva - A Vida é uma Festa, dirigida por Lee Unkrich e Adrian Molina, autor do melodramático roteiro, mantém o padrão técnico habitual (com sua prodigiosa plasticidade) da Disney/Pixar. Enfim, mais um filme maravilhoso para celebrar o cinema e a tradição mexicana.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Crítica: Lady Bird: A Hora de Voar



Lady Bird: A Hora de Voar
por Joba Tridente*

A impressão de se assistir a um filme norte-americano sobre adolescentes é a de que (com variação mínima) se você viu um já viu todos, pois o perfil dos personagens (estudantes do ensino médio) é padrão: brancos classe média (que têm por amigos o gordo, o gay, o negro e, mais recentemente o latino e o asiático) e brancos ricos (que têm amigos brancos, magros ou atléticos)..., e na motivação dos seus confrontos banais: o ciúme, a inveja, o esporte, as provas escolares, o romance, o oportunismo, a vagabundagem. Independente da classe baixa ou alta, em geral, os jovens são muito tolos. Ah, e não faltam sonhos realizados mais por sorte do que por mérito etc. É tão padrão que você sabe como tudo termina antes mesmo de começar a assistir. É o tipo de entretenimento “cômico” juvenil que não exige raciocínio algum do espectador e pode ser degustado imerso no maior combo do mundo e até mesmo viajando nas redes sociais com celular de última degeneração, digo, geração. Cinco minutos depois da sessão, você nem se lembra mais o quanto pagou pelo passatempo.


Assim, é difícil crer que um filme tão insosso e óbvio como Lady Bird: A Hora de Voar, que sai de lugar algum para lugar nenhum, tenha caído, feito cereja caramelizada, nas graças cristalizadas da crítica estadunidense como se a maior novidade do século. Escrito e dirigido pela mais nova queridinha da América, Greta Gerwig, o melodrama inspirado em algum momento estudantil da autora, em sua cidade natal, Sacramento, fala das agruras de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), uma jovem, de 17 anos, que cursa o último ano do ensino médio, no colégio católico Imaculada Conceição, em Sacramento, e não vê a hora de sumir daquele cidade provinciana que ela odeia.


Ao contrário da Dorothy (Judy Garland), que em O Mágico de Oz (1939), disse não haver lugar melhor que o seu lar (no Kansas), Lady Bird acha que qualquer lugar, desde que Nova York, Connecticut ou New Hampshire, é melhor que Sacramento (na Califórnia), onde vive com os pais Marion (Laurie Metcalf) e Larry (Tracy Letts), e o irmão adotivo Miguel (Jordan Rodrigues) e sua namorada Shelly (Marielle Scott). Apesar dos seus limites intelectuais e dos limites financeiros da sua família, a teimosa Lady Bird, que diz ter nascido do lado errado dos trilhos (onde vive a classe média), e que tem na gordinha Julie (Beanie Feldstein) a sua melhor amiga, sonha alto, quer estudar na melhor faculdade do país. Bem, ela “é um pássaro” e está disposta a fazer qualquer coisa para voar dali. Porém, enquanto “suas asas” não crescem o suficiente, ela vai se “socializando”, com a turma do colégio, e descobrindo com seus namorados Danny (Lucas Hedges) e o blasé Kyle (Timothée Chalamet) que nem sempre amor tem a ver com sexo (ou vice-versa).


Aparentemente a proposta do melodrama Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017), de Greta Gerwig, que no Brasil recebeu o ridículo subtítulo (A Hora de Voar), é tratar tanto da rebeldia sem causa quanto da causa do tédio, entre os jovens estadunidenses (?) que correm atrás de profissões rendosas e da melhor vitrine social e ou que ficam preguiçosamente à espera da herança acumulada pelos pais. No entanto, assim como o argumento clichê (garota em crise familiar e ou estudantil e ou romântica), o roteiro esquemático traz nada de novo e ou que fira sensibilidades (como bullying), principalmente do público (alvo) feminino..., deixando a morna narrativa seguir linear e sem sustos. Daí que, mesmo para um filme juvenil, quando se espera uma tormenta, que faria jus à transição e amadurecimento da tola Lady Bird (se ela tivesse realizado sequer a jornada da heroína), o que se encontra é uma decepcionante calmaria rumo à fonte dos desejos.


Enfim, considerando que a excelente Saoirse Ronan, de 23 anos, não convence na idade de 17, mas se sai bem na pele da confusa Lady Bird, assim como o elenco coadjuvante em seus devidos papeis rasos; que o requentado filme de adolescente está mais para melancólico que cômico, já que as “piadas” não têm a menor graça (para o espectador adulto); que o desenvolvimento dos personagens femininos é razoavelmente "melhor" que o de qualquer personagem masculino; que a direção é primária e que, apesar de uma trama tão lugar comum e um melodrama tão já visto, recebeu cinco indicações ao Oscar 2018..., Lady Bird: A Hora de Voar deve encontrar o seu público, talvez bem menos ranzinza que eu... Ai que saudade de John Hughes (1950-2009).

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Crítica: Três Anúncios Para Um Crime



Três Anúncios Para Um Crime
por Joba Tridente*

Em tempos doentios, de gente alucinada em busca do hipocritamente, digo, politicamente correto e de oportunistas do denuncismo a alguns minutos de fama, não será novidade quando bebês começarem a se perder num emaranhado de folhas, ao nascer do cruzamento de um repolho com uma cenoura. Também é possível que os amantes do cinema de beatitudes e de comédias imbecilmente juvenis entendam nada do humor negro do thriller Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017), do diretor britânico Martin McDonagh (Na Mira do Chefe/In Bruges, 2008 e Sete Psicopatas e um Shih Tzu/Seven Psychopaths, 2013).

Como se sabe, o humor negro usa a linguagem ferina (que alguns consideram grosseira) para falar (geralmente) de coisas sérias e atingir perfeitamente o alvo (você!). Digamos que humor negro é tudo aquilo que nos faz rir (geralmente mais que em outros) em um filme inglês..., principalmente se algo relacionado à estupidez humana. Desculpe o pleonasmo, se é estupidez, só pode ser humana. Ah, e ao contrário do que se pensa, o humor negro não é uma linguagem de fácil domínio, principalmente no cinema.


Três Anúncios Para Um Crime, escrito pelo próprio McDonagh, é ficção, mas não parece, já que do lado de cá da telona, não são poucas as histórias diárias de mulheres violentadas e mortas. O roteiro irretocável vai ao âmago da amargurada Mildred (Frances McDormand), uma mãe que, inconformada com o fato de sete meses após o cruel assassinato da sua filha não ter sido encontrado o criminoso, decide instigar o delegado local Willoughby (Woody Harrelson), através de três painéis dispostos estrategicamente numa estrada que liga sua casa à pequena e “pacata” Ebbing. Como era de se esperar, os outdoors causam comoção e os moradores tomam as dores de Willoughby, principalmente o desequilibrado oficial Jason Dixon (Sam Rockwell), que se acha acima da lei para ameaçar quem quiser, inclusive torturar negros que, segundo ele: “não são negros, são pessoas de cor”. A rancorosa Mildred sabe que Willoughby, o responsável pela investigação, é um bom delegado (ainda que feche os olhos às mazelas dos seus policiais), mas ela está cansada de esperar por uma solução. Em sua catarse desesperada ela precisa encontrar alguém para culpar, inclusive das suas faltas enquanto mãe.


Embora pesado no tema, Três Anúncios Para Um Crime tem narrativa ágil e enfatiza com humor desconcertante as culpas, as frustrações, os pecados, os desajustes escondidos atrás das portas da cidade e escancarados com as “denúncias” de Mildred. Não que as situações de violência e ou diálogos pertinentes sejam cômicos, muito pelo contrário. Porém, dada a idiossincrasia rústica daquela gente, algumas acabam engraçadas e até hilárias. Ou, no mínimo, despertam um riso nervoso. Também porque, (aparentemente) excetuando o delegado, não há heróis e ou vilões naquela cidade, mas um bocado de inocentes úteis movidos a interesses pessoais.


Nesta balada melancólica do premiado dramaturgo Martin McDonagh, sem perder o foco da violência contra a mulher, os versos rasgados tratam também de sexismo e de pedofilia clerical (num “monólogo” arrepiante), sem soar falso em sua multiplicidade crítica, já que no assédio sexual todas as dores e vergonhas se igualam. O que se vê no denso Três Anúncios Para Um Crime é um alinhavo temático perfeito e não um remendo tapa buraco ao sabor do maniqueísmo hollywoodiano. Do argumento ao elenco tudo funciona com precisão. Pode não ter um final satisfatório para o espectador comum, acostumado ao moralismo americano (?) vigente, mas é um final que faz sentido e, no contexto da trama fiada a amor, fúria e humor, vale bem mais que um coelhinho de louça...


Enfim, considerando a originalidade do roteiro e a direção notável de McDonagh; o drama tenso (imersivo) e os diversos tons de humor; a performance magnífica do trio protagonista (Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell) e a excelência do elenco de apoio; as roubadas de cena de Rockwell, com seu desajustado policial apaixonado por HQs e praticante de maldades incentivadas pela sua insana mamãe sulista; a trilha sonora bem colocada; as reviravoltas surpreendentes da história, sem perder rumo ou cair no marasmo..., se você busca um espetáculo fora do normal, Três Anúncios Para Um Crime é uma produção britânico-americana que vai te fazer acreditar que ainda existe vida inteligente no cinema...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Crítica: O Insulto


O Insulto
por Joba Tridente*

Sempre que ouço, vejo ou leio algo relacionado ao Oriente Médio, me lembro do fascinante conto Micrômegas (1750), de Voltaire (1694-1778), que narra, com muito sarcasmo, as aventuras espaciais de Micrômegas, um indivíduo de oito léguas de altura, originário da estrela Sírio, que, ao ser condenado por suas estranhas ideias (como “querer saber se a forma substancial das pulgas de Sírio era da mesma natureza que a dos caramujos”), decide fazer uma viagem filosófica pelo Universo e, acompanhado de um filósofo de Saturno, chega a Terra, na margem setentrional do Mar Báltico, a 5 de Julho de 1737. Aqui eles conhecem outros filósofos e debatem sobre a essência das coisas, do espírito, da matéria, esmiuçando a estupidez de todos os seres: “Sabeis, por exemplo, que neste momento, cem mil doidos da minha espécie, que usam chapéus, matam cem mil outros animais que usam turbante ou são massacrados por eles. Por toda a Terra é assim que se procede desde tempos imemoriais. (...) Trata-se, informou o filósofo, de um pouco de lama do tamanho do vosso calcanhar. Não é que qualquer dos Homens que se deixa degolar pretenda algumas migalhas dessa lama. Trata-se apenas de saber se ela é pertença de um certo homem chamado “Sultão” ou de outro a quem denominam, não sei porquê, “César”. (...) Nem um nem outro viram ou chegarão a ver o pequeno torrão em litígio; e quase nenhum destes animais, que mutuamente se degolam, viu o animal por quem se deixa matar.”.


Diante do primoroso filme libanês O Insulto (The Insult, 2017), do diretor libanês muçulmano Ziad Doueiri, que divide a autoria do roteiro com sua esposa libanesa cristã Joelle Touma, também me lembrei de Micrômegas de Voltaire. Embora se passe nos dias de hoje, em Beirute, o fascinante drama de tribunal, envolvendo um libanês nacionalista e um palestino refugiado, chafurda nas cinzas de um passado explosivo que incide no presente, na tentativa de apagar as milenares brasas intermitentes em busca de conciliação.

Em O Insulto, o pivô da discórdia é uma calha na sacada do apartamento onde vivem o mecânico libanês cristão Tony Hanna (Adel Karam, ótimo) e sua mulher grávida Shirine (Rita Hayek). Após um incidente com vazamento de água da unidade, o construtor Yasser Salameh (Kamel El Basha, excelente), um refugiado palestino muçulmano responsável pelas reformas de fachada na rua, tenta consertar a tubulação e é rechaçado por Tony. Na exaltação dos ânimos, Yasser profere um palavrão que Tony toma como insulto e decide processá-lo, se não receber um pedido formal de desculpas..., que não vem como ele esperava. Essa rixa entre o irascível macho libanês e o estoico macho palestino evolui para ofensas xenofóbicas e agressão física. Aí, o que era uma briga insignificante, por causa do vazamento de um cano, toma proporções inesperadas e vai parar num tribunal superior, onde Tony é defendido pelo renomado Wadji (Camille Salameh), alinhado com os cristãos, e Yasser pela jovem advogada Nadine (Diamand Bou Abboud), simpática à causa palestina. O prolongamento da ação judicial, no entanto, com os advogados apresentando dados históricos abomináveis, para justificar ou agravar o procedimento dos seus clientes, acaba despertando o interesse da mídia sensacionalista, ocasionando um inflamado enfrentamento entre libaneses e palestinos...


Dito assim, até parece o roteiro de um filme surreal, absurdo, de humor negro. E poderia ser, não fosse a perspicácia de Doueiri e Touma em acertar dois alvos com uma seta única, ao levantar o tapete médio-oriental que cobre libaneses e palestinos (e israelenses, já que a história tem dois lados, mas sempre cabe adendos) para que as mágoas nacionalistas de um e de outro, para lá varridas, ganhem luz e voz num tribunal onde, aparentemente, não fazem parte da teima em questão. E quanto mais dão corda aos ecos do passado, para tecer a trama do presente, fazendo a verdade de cada um mudar de lado, mais evidente fica que o veredicto é o que menos importa nesse drama de rara inteligência, pois não há água suficiente para lavar tanto ódio contido numa simples desavença.

Com argumento sólido (cabível em qualquer região desse mundo de homens hostis), inspirado em fato ocorrido com o próprio Ziad Doueiri, a narrativa, que se desvela meticulosa nas ruas e tribunais, não requer conhecimento prévio do espectador para compreender o trágico ponto de ebulição da história. Mas deseja um espectador aberto à pertinente reflexão sobre a quebradiça humanidade e seus antigos conceitos de posse, de autoritarismo, de religião: “Não sou Jesus Cristo para dar a outra face!”, e de fé cega e língua afiada: “Não vamos resolver isto fingindo nos amar!”.


Ainda que soe pesado em sua dramatização, com registros impressionantes da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), O Insulto tem alguns momentos de ternura, de leveza, e até mesmo um breve ensaio de humor, ao ironizar os produtos made in China e made in Germany e em sequências envolvendo o esquentado Tony e diversas autoridades. Se bem que o diálogo dele com um governante é muito mais pungente, pela invejável veracidade, que gracioso.

Indicado ao Oscar de filme estrangeiro, prêmio de melhor ator para o palestino Kamel El Basha, no Festival de Cinema de Veneza, proibido na Cisjordânia, O Insulto traz o olhar doméstico de um diretor e roteirista que conhece os sotaques religiosos e étnicos da região e não teme abrir feridas não cauterizadas da Guerra Civil Libanesa (que matou mais de cem mil cidadãos) para falar de um anátema: conciliação. Doueiri busca na arte cinematográfica um diálogo praticamente impossível no dia a dia de uma gente de pavio curto pronto para a flama e que se equilibra no fio da navalha.

Enfim, considerando a direção segura, que busca a naturalidade do elenco irretocável; o argumento corajoso e convincente; a inteligência do script no desenvolvimento de questões tão (explosivamente) delicadas; o nível dos diálogos ferinos; a boa edição..., se gosta de dramas políticos, de filmes provocativos que te tiram da sua zona de conforto e te fazem pensar, por um bom tempo, sobre as relações humanas e o papel do homem (incluindo você) na Terra, não perca!


Talvez O Insulto não seja tão perturbador quanto O Atentado (2012)..., filme banido em 22 países da Liga Árabe e que recentemente levou Ziad Doueiri a se defender de traição, em um tribunal militar, por ter filmado algumas cenas em Israel..., mas ele também incomoda e toca num ponto crucial daquela (?) cultura: a intolerância. O que também me traz à lembrança a clássica composição “Por Quem Os Sinos Dobram”, de Raul Seixas: “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho/ Você sabe que a gente precisa entrar em contato/ Com toda essa força contida é que vive guardada/ O eco de suas palavras não repercutem em nada/ É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro/ Evita o aperto de mão de um possível aliado/ Convence as paredes do quarto, e dorme tranquilo/ Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo/ Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz/ Coragem, coragem, eu sei que você pode mais/ É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro/ Evita o aperto de mão de um possível aliado/ Convence as paredes do quarto, e dorme tranquilo/ Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo.”

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Crítica: A Forma da Água


A Forma da Água
por Joba Tridente*

Para quem gosta de histórias baseadas em fatos imaginários, A Forma da Água (The Shape of Water, 2017), do diretor mexicano Guillermo del Toro, é deliciosamente potável e extraordinariamente refrescante no atual cenário enevoado pelo denuncismo hollywoodiano. A sua trama, muito bem tecida no universo do conto maravilhoso, por del Toro e Vanessa Taylor, enreda o espectador, numa alegoria de fascinante mistério e sedução, do belíssimo prólogo ao inebriante epílogo.

Aparentemente simples, como se um Canto de Sereia ou um Solo de Tritão para entreter crianças, A Forma da Água tem narrativa adulta, ousada, que não se apequena nem diante de questões de racismo, de homofobia, de trabalho, de violência sexual, do moralismo vigente nos anos 1960 (época em que se situa esta fábula). Antes de prosseguir, é bom que se diga que não se trata de um drama social, e as questões citadas são bem-vindas pontuações (quase) subliminares no excelente roteiro..., que está mais para um drama romântico surreal.


Já que é hora de dar asas à imaginação..., era o ano de 1962 e, na quentura da Guerra Fria (1947-1991), os EUA e a URSS disputavam a primazia do espaço sideral quando a rotina de trabalho de Elisa (Sally Hawkins), servente em um laboratório de pesquisa espacial, em Baltimore, foi quebrada com a chegada do impiedoso agente do governo norte-americano Richard Strickland (Michael Shannon), trazendo prisioneiro um estranho e belo Anfíbio (Doug Jones, de Hellboy, Fauno do Labirinto, A Colina Escarlate), capturado no Amazonas. Elisa, que mora num pequeno apartamento em cima do suntuoso Cinema Orfeu, é muda e só tem dois amigos: o vizinho Giles (Richard Jenkins), um desenhista publicitário com quem divide sonhos românticos e a felicidade dos musicais que assistem na tv, e Zelda (Octavia Spencer), uma colega de trabalho com quem troca confidências e divide o serviço noturno de limpeza no laboratório. Assim, por conta de um cotidiano tão mínimo, ao conhecer casualmente o espécime raro, cuja constituição física assemelha-se à de um humano, compreende-se porque é tomada de grande ternura por ele e decide libertá-lo de um destino possivelmente trágico.


Tanto a sinopse quanto o trailer (para quem fez a besteira de assistir) de A Forma da Água pode levar o espectador a concluir que se trata de mais uma história de ficção infantojuvenil de seres alienígenas capturados para pesquisa científica e libertos por alguma alma benevolente e ou de uma fantasia no estilo de A Bela e A Fera. Ele não está de todo enganado. Porém, na via de todo bom contador de histórias, o grande diferencial é o seu conteúdo, que (passando ao largo das tramas de ação e aventura juvenis) desvela um inusitado conto mágico para adultos (com reflexões sociais pertinentes), onde exala romantismo e sensualidade e transborda sequências de sexo e de incômoda violência física (com sangue) e de linguagem (chula).


Após o ótimo Circulo de Fogo (2013) e o deslize A Colina Escarlate (2015), o irregular del Toro volta às telas, fazendo bom uso de elipses, num filme robusto sobre espécies e atos heroicos praticados por gente que, de tão comum, é invisível na orbe dos poderosos. Entre as sutilezas do inteligente roteiro, a que mais chama a atenção é a irônica caracterização do homem bom e do homem mau, no embate político-militar envolvendo o cientista russo Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) e o segurança norte-americano Strickland (Shannon). Corajoso! Na mesa das cobaias, humanidade e animalidade em nome do intangível e ou da pátria armada, por mero capricho de conquistar o espaço, onde o homem jamais esteve..., sem sequer compreender as nuances da vida na Terra, onde o homem sempre esteve.

Enfim, considerando o elenco excepcional, o design de produção (com sua paleta de infinitos tons de verde) e efeitos especiais inquestionáveis, A Forma da Água, emoldurado com a notável fotografia do dinamarquês Dan Laustsen, ainda que o contexto seja outro (?), é um filme à altura do primoroso O Labirinto do Fauno (2006), considerado a melhor obra de Guillermo del Toro. Diante de uma obra tão singular, é até redundante dizer que é um espetáculo de encher os olhos e de afagar o cérebro, com sua bela e imersiva história de amor e fúria conduzida com equilíbrio e muita criatividade no melhor do “Era uma vez...”.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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