domingo, 20 de agosto de 2017

Crítica: Bingo: O Rei das Manhãs

Bingo: O Rei das Manhãs
por Joba Tridente

O palhaço é um personagem que tanto provoca risos quanto medo em crianças e adultos. A coulrofobia (medo de palhaços), que não escolhe público, é bem mais comum do que a maioria das pessoas imagina e ou admite. A arte do improviso praticada por palhaços, quando compartilhada com a plateia, geralmente apavora porque tira qualquer espectador (medroso ou não) da sua zona (poltrona) de conforto, pois não se sabe quem será escolhido para “saco de pancada” numa situação ridícula. Os mais tímidos (quanto mais inocente mais constrangimento!) entram em pânico, suam frio, só de pensar em ser vítima da imprevisibilidade de um ator de cara pintada e em trajes estranhos e de quem é impossível conhecer as reais intenções. É esse instinto que liga o alerta e faz com que muita gente fique longe de circos, teatros e até mesmo de festinha infantil. Nem mesmo a psicologia tem resposta para este medo antigo.

São muitas as histórias que invocam a presença deste ilustre personagem nas páginas literárias e de hq, nos palcos de teatro e ópera, nas telas de cinema e de tv, em situações nonsense, lúdicas, tragicômicas ou macabras. Raramente se conhece ou se reconhece o ator (ou atriz) por trás da máscara, em ação no palco ou no picadeiro, à vezes tentando cumprir a máxima que diz: mesmo quando quer chorar o palhaço é “obrigado” a fazer a plateia sorrir com palhaçadas ou humilhações.


Esse hahaha! todo é apenas para iniciar as minhas considerações ao filme Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende, que traz para a telona de cinema a história desveladora do artista Arlindo Barreto, que (fantasiado) foi um fenômeno de popularidade na telinha da tv, nos anos 1980, ao dar corpo e alma ao famoso palhaço Bozo e (por questões contratuais) obrigado a manter-se incógnito. Tudo o que o artista de teatro, cinema e tv mais desejava era ser reconhecido pelo seu trabalho, dar autógrafos, ser cumprimentado na rua, ser orgulho da família e principalmente do filho ("Você é o único pai que brinca com todas as crianças, menos comigo!")... O sonho do ator Arlindo Barreto, que acreditou ter tirado a sorte grande ao ser selecionado para interpretar a versão tupiniquim do palhaço americano criado nos anos 1946, por Alan Livingston (1917-2009), acabou virando pesadelo quando, envolvido com drogas, ele perdeu o controle da sua vida e da sua arte. Arlindo foi o Bozo de 1984 a 1986 e chegou a dividir o palco/picadeiro e o personagem com o cantor Luis Ricardo Monteiro.


A biografia de Arlindo Barreto daria um documentário e tanto, assim como deu o desconcertante e melancólico artigo O Palhaço de Deus, de Raquel Freire Zangrandi para a edição 15 da Revista Piauí (2007), que despertou o interesse de Rezende pelo ilustre personagem. Para quem tem dificuldades com as entrelinhas, nunca é demais lembrar que Bingo: O Rei das Manhãs é “apenas” inspirado na vida de Barreto. Assim, qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas e com fatos relevantes sobre os bastidores da televisão brasileira nos anos de 1980, terá sido mera "coincidência"..., ainda que qualquer espectador antenado detecte Bozo em Bingo/Augusto Mendes (Vladimir Brichta); os canais televisivos Rede Globo na prateada Mundial e SBT na iniciante TVP; a apresentadora Xuxa em Lulu; as atrizes Márcia de Windsor em Marta Mendes (Ana Lúcia Torre) e Angelina Muniz (Tainá Müller) em Angélica; a diretora do programa Bozo, Elisabete Locatelli, em Lúcia (Leandra Leal); o dono da marca Bozo, Larry Harmon, em Peter Olsen (Soren Hellerup); e, no rebolado, Emanuelle Araújo encarnando a única personagem que não precisou trocar de nome: Gretchen


A vida intensa (teatro, filmes pornográficos, tv, evangelização) e polêmica (drogas) de Arlindo Barreto, como pode ser “lida” na internet, é mote para um dramalhão piegas. Porém, em mãos habilidosas de Bolognesi e de Rezende, o que até então era espalhafatoso “virou ficção” lapidada com esmero e muito bem enquadrada, pelo fotógrafo Lula Carvalho, num drama tragicômico que conta os percalços da vida do ator Augusto Mendes (Brichta) em busca de fama e dinheiro.

Mendes, que é separado da atriz Angélica (Muniz), passa por dificuldades financeiras e se divide em cuidados para com o filho Gabriel (Cauã Martins) e a mãe Marta (Torre), vê a sua vida mudar drasticamente ao ser escolhido para o papel de Bingo, um palhaço americano, animador de auditório infantil, que será franqueado no Brasil pelo canal TVP. Toda via do sucesso, no entanto, quando maior a fama (anônima) e a grana, maior o seu afastamento da família, em busca de prazeres fáceis (drogas e mulheres). Porém, como tudo que sobe fácil pode cair com estardalhaço, um dia o destino colateral decide cobrar a conta..., ou o dízimo!


Bingo: O Rei das Manhãs é um filme corajoso e que não se pauta por nenhum exibicionismo visual..., recurso muito usado hoje em dia para encobrir falhas ou falta de roteiro. É intenso, direto e acertadamente amoral. Nota-se que Daniel Rezende ama a história que está contando. Assim como seus protagonistas (Brichta e Leal), acredita no argumento de perdição e ou de redenção dos seus personagens e deixa a narrativa fluir divertida e incômoda, na base do "a vida como ela é" e ou era nos ("perdidos") anos 1980. Não julga e (mestre!) sabe exatamente a hora certa de cortar as cenas para não ser atropelado pela pieguice grudenta do gênero. Pelos deuses da sétima arte, o que é aquela sequência do aniversário de Gabriel?


Daniel Rezende, premiado com o Bafta e indicado ao Oscar, em 2003, pela montagem de Cidade de Deus (2002), desta vez deixou o ofício de montador nas mãos, também experientes, de Marcio Hashimoto (será que teve muito trabalho para editar?) que entrega uma obra nada redundante. Elenco competente, com participação especialíssima do grande Domingos Montagner (1962-2016), na pele do palhaço Aparício, que dá aulas de palhaçada ao Augusto/Bingo; direção de arte admirável na reconstituição de época e curiosidades sonoras da “década perdida” fazem do espetacular (e por vezes ferino) Bingo: O Rei das Manhãs um dos melhores lançamentos cinematográficos do ano. Um filme que emociona e faz a gente pensar no quanto a vida é cheia de “pegadinha”! Uns se dão bem, outros recorrem ao Amém!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Crítica: Uma Família Feliz


Uma Família Feliz
por Joba Tridente
    
Uma vez que as animações que estreiam por aqui são dubladas em português (até por celebridades), poucos são os espectadores que se dão ao trabalho de saber a origem delas..., possivelmente imaginando que, por conta do título e trilha sonora em inglês, só podem ser made in USA. Outra contribuição ao equívoco é que, diferente das animações asiáticas, principalmente a japonesa, não é fácil para a criançada (público alvo) ou mesmo adulto distinguir alguma originalidade nos traços e conteúdos das produções europeias e latinas que, por questão de mercado, procuram se aproximar cada vez mais da “matriz”. Como, por exemplo, o curioso desenho animado alemão Uma Família Feliz (Happy Family, 2017), baseado no best-seller homônimo do premiado escritor e roteirista David Safier.


O enredo de Uma Família Feliz, dirigido por Holger Tappe, a partir da levíssima adaptação da novela, feita pelo próprio Safier e Catharina Junk, gira ao redor da disfuncional família Wishbones (Wünschmann, no original), formada por Emma, que tem uma livraria dispendiosa, Frank, escriturário que cumpre horas extras, Fay, a filha adolescente rebelde sem causa, e Max, o caçula nerd. Certa de que os Wishbones precisam urgentemente discutir a relação, Emma decide levar a estressada família a uma festa à fantasia. Porém, por conta de um apaixonado e galanteador Drácula, a família dá de cara com a bruxa Baba Yaga e cada um deles é transformado no personagem que veste: Emma em Vampira, Frank em Frankenstein, Fay em Múmia e Max em Lobinho. Daí, na caçada à bruxa, para reverter o feitiço, cada um enfrentará, em situações hilárias, seus próprios demônios: crise de identidade, medo, agressividade, relacionamentos, bullying, assédio, estudo..., no que chamamos de jornada do herói.


A mistura bem humorada de mitos europeus de Contos de Fadas (Baba Yaga) e de Contos Góticos (Vampiros, Lobisomem, Múmias, Frankenstein) dá a Uma Família Feliz ingredientes sólidos para o desenvolvimento de uma paródia repleta de ação e aventura e romance numa trama (terrir) que diverte educando a criançada e alertando os adultos sobre a possessividade nos relacionamentos amorosos e familiares. O que vai fazer muito espectador repensar seus conceitos é a motivação do “vilão” Drácula para o seu grande “ato de vingança” contra a humanidade. É algo até banal, entre homens e mulheres, mas doentio e na medida para sessão de psicanálise.


Com notáveis referências ao seriado americano Os Monstros (1964-1966) - onde Lily, a matriarca, é Vampira, o seu marido Herman é Frankenstein e o filho Eddie é Lobinho - e (inclusive nos traços) aos ótimos Hotel Transilvânia 1 (2012) e Hotel Transilvânia 2 (2015), o roteiro alterna assuntos adultos e infantojuvenis, em linguagem simples e de fácil compreensão para qualquer espectador. Apesar do tema “lúgubre”, Uma Família Feliz é engraçado, as gags são legais, e a edição é muito boa. Por falar em humor, nem todo mundo vai gostar da piada escatológica (ao gosto dos americanos), mas muita gente vai rir de uma cena pastelão inspirada na briga entre um mal-humorado super-herói verde e um egocêntrico vilão espacial, no filme Os Vingadores (2012).


Embora reconhecíveis de outras produções (ou por isso), os velhos personagens que desfilam jovialidade na saga de Uma Família Feliz, podem ser visto como se (atores) estivessem representando um novo texto, numa história contemporânea. Entre as figuras mais interessantes estão a impagável Múmia do Faraó Imhotep (que rouba todas as cenas), as adoráveis Baba Yaga e hippie Cheyenn e o charmoso “vilão” Drácula. Aliás, as sequências das Múmias (Imhotep e Fay) no deserto são antológicas.

A direção de arte é bastante observadora na paleta de cores. Indo na contramão dos coloridíssimos filmes infantis, opta por tons mais naturais e que variam conforme o segmento vivido pelos personagens na cidade, no deserto e ou no fantástico castelo futurista do sedutor Drácula. Afinal, é um filme de monstros disfuncionais e não de graciosos duendes.


Enfim..., ressaltando a ironia do título Uma Família Feliz, já que, na verdade, o que salta aos olhos é o cotidiano de uma família infeliz precisando desesperadamente encontrar a felicidade..., ainda que o seu alvo seja o entretenimento juvenil, esta é uma daquelas animações que podem surpreender o público adulto por causa do conteúdo familiar bem intencionado e, por vezes, ousado subtexto, ao tratar de relações conjugais. O seu estilo pode até não ser dos mais originais (ao apostar nas referências televisivas e cinematográficas), mas apresenta uma excepcional qualidade gráfica e um convincente 3D de profundidade e de avanço sobre a plateia. Um espetáculo com belas metáforas para toda a família refletir sobre seus próprios percalços.

*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
por Joba Tridente

Nascida nas páginas da revista Pilote, em 1967, a aclamada série franco-belga de ficção científica em quadrinhos Valérian, que inspirou a franquia Star Wars (sem receber os créditos) e o fascinante O Quinto Elemento (1997), chega aos cinemas meio século depois do seu lançamento, na espetacular leitura do visionário roteirista e diretor Luc Besson, com o convidativo título Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (Valérian et la Cité des Mille Planètes/Valerian and the City of a Thousand Planets, 2017).


Repleto de efeitos especiais que superam qualquer produção recente, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é daqueles filmes juvenis de encher os olhos e deixar o espectador (de qualquer idade!) de queixo caído, sem saber para que lado olhar e ou em quê prestar a atenção..., tamanho o deslumbre visual. É uma viagem sensorial e imersiva no que há de mais avançado em tecnologia CGI. Mas, toda via da beleza infinita pelo universo da fantasia e ficção científica, esta admirável cenografia ajuda ou atrapalha na hora de contar as audaciosas aventuras dos jovens agentes espaço-temporais Major Valerian (Dane DeHann) e Sargento Laureline (Cara Delavigne) por mundos nunca antes explorados? Aí depende das suas expectativas! O que melhor te satisfaz: pipoca ou conteúdo?


Quem é fã do antológico O Quinto Elemento (1997) vai se sentir bem próximo ao ambiente e ao enredo do fantástico Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, já que esta nova trama (vinte anos depois) tem muito da sua substância original em cenas que até parecem releitura. A mim, Luc Besson, com sua ansiedade hollywoodiana, tem o dom tanto para criar fantasias maravilhosas (OQE) quanto para equívocos como Lucy. No caso de Valerian, pode até haver algum problema de itinerário narrativo (principalmente na condução dos atores), mas em um projeto tão ambicioso, o incômodo passa até meio batido.


Ao adaptar os quadrinhos de Pierre Christin e de Jean-Claude Mézières, Besson  te conduz a uma viagem anos-luz da imaginação. Ambientada no século 28, a história acompanha uma transcendental missão de Valérian (DeHann) e sua parceira Laureline (Delavigne) para resgatar o raríssimo Mül Conversor, um adorável animal que está sendo negociado ilegalmente num centro de compras virtual, em um planeta deserto, e evitar que ele caia em mão erradas no Complexo Espacial Alpha, que abriga espécies de mil planetas. Porém, este é só o início das pequenas e absurdas aventuras, relacionadas a uma grande tragédia cósmica, que os dois (salvando-se mutuamente) vão enfrentar para evitar o colapso da Cidade dos Mil Planetas.


O roteiro de Besson é simples, mas eficiente para a narrativa (juvenil!) despretensiosa que propõe. Megalomaníaco visual? Talvez, mas não há como lhe negar criatividade, que vai muito além da estética, no desenvolvimento de sequências deliciosamente malucas, como a das borboletas luminosas; das águas-vivas mentalizadoras; do inacreditável mercado virtual... O apurado desenho dos personagens extraterrestres mostra que a tecnologia (pra quem pode pagar!) realmente não tem limites.

Sobretudo por causa da exuberante plasticidade (que desconecta qualquer um da Terra), pode até parecer que há “cenas de ação em excesso” e “texto de menos”..., e ou que Luc Besson está fugindo do assunto “curto” preenchendo o “vácuo” da história, entre o formidável prólogo (ao som de Space Oddity de David Bowie) e o adequado epílogo, com qualquer coisa vertiginosa só para estender seu discurso (visual). No entanto, o tal “excesso de cenas” serve como encaixe de capítulos de uma história em quadrinhos cujos personagens enfrentam as mais diversas (e bota diversas nisso!) situações para atingir o alvo almejado. Sem elas o script perderia o sentido, já que não haveria nenhum antagonista para responder pela insanidade inicial cometida contra um povo pacífico. Quanto ao texto/diálogo, cá pra nós, é bem melhor menos do que redundante. Também porque são diálogos práticos (alguns com humor), necessários para conduzir sequências e não para reflexão profunda sobre a humanidade. Primeiro a diversão e depois a razão.


Para o espectador mais adulto (exigente!), numa trama em que a maioria dos personagens em ação é de perfeito CGI, a performance do elenco humano fica um pouco a desejar. Já o público adolescente talvez nem repare que os atores Dane DeHann e Cara Delavigne não são ideais para os papéis. Além da jovialidade e tipo físico diferente dos personagens da hq, demonstram pouco carisma e nenhuma química. Sobre a breve participação de Rhiana, embora a sua bela Bubble remeta diretamente à Diva Plavalaguna (Maïwenn Le Besco), de O Quinto Elemento, a cantora tem presença e um número artístico memorável.


Enfim, com muita ação e historietas bacanas, numa narrativa repleta de fantasia e que vira a ficção científica de ponta cabeça, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um espetáculo que, para melhor apreciação, deve ser assistido com espírito jovem..., do contrário, o espectador com espírito adulto e atrás de alguma mensagem edificante é capaz de se aborrecer. O humor pode não ser dos melhores, mas os adolescentes devem achar alguma graça e, inclusive, aprovar o amor pudico do casal protagonista. Considerando que este é um espetáculo de entretenimento raro, com linguagem de história em quadrinhos e de beleza irretocável, eu o veria novamente..., depois de deixar o meu eu adulto bem trancado em casa!



*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

domingo, 6 de agosto de 2017

Crítica: Malasartes e o Duelo com a Morte

Malasartes e o Duelo com a Morte
por Joba Tridente

Desde criança gosto das histórias maliciosas do Pedro Malasartes (ou Malazartes) e é com satisfação que vejo este rico personagem da Tradição Oral Portuguesa e Brasileira retornar aos cinemas na comédia Malasartes e o Duelo com a Morte, de Paulo Morelli. A primeira vez que o mestre da embromação deu o ar da graça na telona foi em 1960, com Mazzaropi e o seu As Aventuras de Pedro Malazartes, que conta como o matuto, roubado pelos irmãos e fugindo da namorada casadoira, sai mundo afora realizando pequenos golpes para se sustentar. Um filme que, em meio a outros diálogos cômicos, traz esse, entre Malazartes (Mazzaropi) e o diretor de uma escola particular onde ele pensa em deixar os órfãos que encontrou pelo caminho: Diretor: Você tem outros irmãos? Malazartes: Tenho dois irmãos!  Diretor: São vivos? Malazartes: O único vivo sou eu. Os outros dois trabalham.


Em seu roteiro mais enxuto, Morelli traz o malandrão Malasartes (Jesuíta Barbosa) às turras com Próspero (Milhem Cortaz), que o quer bem longe de sua irmã Áurea (Isis Valverde), e amigável com a Morte (Júlio Andrade), que o quer bem perto para finalizar um maquiavélico plano de aposentadoria. Mas, será que um malandro mortal pode enganar um malandro imortal que o quer enganar e, de quebra, ainda dar uma rasteira na Parca Cortadeira (Vera Holtz) e no Esculápio (Leandro Hassum), dois trevosos que (sem que ele saiba) têm lá as suas razões para atrapalhar os planos da Morte? É assistir para saber a quem caberá os louros da vitória: se ao vivaldino Malasartes, devoto do amor (sem compromisso), ou se à entediada Morte, devota do trabalho (sem rotina). A hora do ajuste de contas com a vida ou com a eternidade é agora! Vencerá o mais esperto!


Ambientado em um interior imaginário, num lugarejo que hoje em dia a gente só vê em novela de época, o roteirista e diretor Paulo Morelli traz uns três bons causos conhecidos do ingênuo trapaceiro e galanteador Malasartes (da mesma "escola" do sensacional João Grilo que, além de cordéis célebres, protagonizou o Auto da Compadecida (1955), do mestre Ariano Suassuna) que aplicava pequenos golpes nos espertalhões ambiciosos que se achavam mais espertos que ele..., igual ao tolo Zé Candinho (Augusto Madeira), encantado por um “pássaro” raro. A trama é bem simples, por isso não dá pra falar muito mais sem correr o risco de cometer spoiler e o filme perder o humor.

Com interessante desenho de abertura-prólogo, cujos traços lembram a animação Samurai Jack, do Genndy Tartakovsky, a comédia romântica caipira e fúnebre Malasartes e o Duelo com a Morte é leve, com boas gags brejeiras, elenco competente, trilha sonora agradável e efeitos especiais que impressionam. Enfim, um excelente espetáculo para se ver com ou sem a família. Que venham mais causos!!!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Crítica: O Estranho Que Nós Amamos

O Estranho Que Nós Amamos
por Joba Tridente

A chegada aos cinemas do filme O Estranho Que Nós Amamos, com Nicole Kidman e Colin Farrel dirigidos por Sofia Coppola, deve despertar em muitos espectadores o interesse em conhecer a perturbadora versão homônima de 1971, dirigida por Don Siegel (1912-1991) e estrelada por Clint Eastwood e Geraldine Page (1924-1987). Embora baseados na novela A Painted Devil (1966) de Thomas Cullinan (1919-1995), o foco de ambos é, digamos, sexualmente diferente...


Em sua releitura de O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017) Sofia Coppola, que disse ter escrito o roteiro a partir da novela e não do filme de 1971, transfere a ação ambientada na Louisiana (1863), durante a Guerra Civil Americana, para a Virginia (1864), sul dos EUA, quando Miss Martha Farnsworth (Nicole Kidman), acolhe nas dependências do seu internato feminino, um soldado ianque ferido, John McBurney (Colin Farrell). Conforme recebe cuidados médico e se restabelece, o “bendito fruto” desperta as mais diversas sensações (e desejos) nas sete mulheres residentes..., gerando ciúmes, assédios e tensão sexual, principalmente entre a diretora Martha (Kidman), a professora de francês Edwina (Kirsten Dunst) e a adolescente Alicia (Elle Fanning).


Quando um realizador faz a releitura de uma grande obra, espera-se que seja para acrescentar algo que tenha passado despercebido do espectador/leitor. O que não é o caso de Sofia Coppola com sua adaptação quase singela de O Estranho Que Nós Amamos..., não fosse o impactante final. A direção é perfeita! A performance do elenco é excelente! Esteticamente é belíssimo. Irretocável! Mas tem um porém, seu roteiro não provoca, não excita. É pudico demais ao falar de desejo sexual reprimido das mulheres e jeitoso demais ao tratar da hipocrisia religiosa. O soldado McBurney, Ferrel, não tem malicia e nem é dissimulado e sedutor quanto o “donjuán” McB, de Eastwood, que age feito um Lobo Mau na iminência de um ataque ao “galinheiro”. Diferente da tensão psicológica causada pela presença de um estranho no ninho, crescendo a cada fotograma, na leitura de Siegel, na versão de Coppola o clima de ameaça praticamente ganha força só no epílogo. E até lá o público será poupado (?) de algumas cenas fortes (não vou cometer spoiler!) por conta da moda elíptica que abrevia tudo, até o tempo.


Mesmo sem ter lido a novela de Cullinan, é impossível não comparar as duas versões cinematográficas. Enquanto o filme de Siegel (talvez o seu melhor trabalho) é um excelente thriller psicológico, intenso e apavorante, do princípio ao fim, Coppola opta por um drama bem mais leve, quase bucólico. Ou melhor, opta por uma versão politicamente correta..., excluindo ou passando ao largo de todos os ferrões incômodos ao (seu) público mais sensível (escravidão, pedofilia, incesto, orgia, lesbianismo) e da rica simbologia dos objetos de arte, figurinos e animais (corvo acorrentado, galinhas poedeiras, tartaruga inocente, taturana sacrificada) que, além de pertencimento, dão forte conotação sexual à narrativa de Don Siegel. Assim, comparado à recatada sensualidade do filme de Sofia, a sublime sequência alegórica do sonho de transgressão sexual, numa releitura provocativa do quadro Corpo Morto de Cristo/Pietá (1495), de Sandro Bottcelli (1445-1510), a versão erotizada de Don pode até ser considerada pornográfica, pelos mais puritanos.


Enfim, considerando o que escrevi acima, se optar por não assistir antes (e ou depois) a versão de O Estranho Que Nós Amamos (1971), com certeza dará uma boa acolhida ao bonito “remake” de Sofia Coppola, que apenas optou por oferecer menos, quando o texto (em questão) pede mais. De uma forma ou de outra, saiba que, se hoje a fotografia de Philippe Le Sourd inebria os sentidos, ontem a fotografia de Bruce Surtees (1937-2012), arrepiava a alma...


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Crítica: Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra
por Joba Tridente

Provando que nem toda releitura cinematográfica é descartável ou subestima a inteligência do espectador, chega aos cinemas o fascinante Planeta dos Macacos: A Guerra..., um desfecho à altura da saga espetacular que recomeçou com O Planeta dos Macacos: A Origem (2011), seguido de Planeta dos Macacos: O Confronto (2014). Uma saga que tem mais divergências do que referências à franquia original nascida lá nos idos de 1968 e também inspirada na obra O Planeta dos Macacos/La Planète Des Singles (1963), de Pierre Boulle.


Planeta dos Macacos: A Guerra, novamente dirigido por Matt Reeves, com o roteiro dele e de Mark Bomback, se passa vinte anos após a ruptura entre as espécies humana e símia, causada (em parte) pelo traumatizado bonobo Koba (Tony Kebbell) em PM: O Confronto, onde a palavra de ordem era “Macaco não mata macaco!”. Agora que a vida anda mais calma na comunidade em que César (Andy Serkis) vive com seu grupo, no meio da floresta, uma ameaça carniceira chamada Coronel (Woody Harrelson) aparece com uma ferocidade humana ímpar, despertando não apenas o lado sombrio de César, mas provocando o êxodo dos macacos e uma nova palavra de ordem: “Eu não comecei esta guerra!”.


Esta guerra que foi enredando César, como se sabe, começou com o desenvolvimento de um vírus para o tratamento do Mal de Alzheimer e cujos efeitos colaterais desenvolveram a inteligência “humana” nos símios usados, sem nenhuma piedade, como cobaias (em Origem). O vírus sofreu mutação, virou gripe simiesca, matou bilhões de pessoas em todo o mundo, e, em busca de qualidade de vida, os norte-americanos sobreviventes enfrentaram violentamente os macacos (em Confronto).

Vinte anos depois, com outra mutação do vírus simiesco desencadeando uma estranha doença nos humanos, o Coronel, um militar com visão distorcida de cura e obcecado pela ideia de higienização do planeta, colocou em ação o seu exército particular para dizimar os macacos. Os dardos mortais foram lançados e feridas abertas. Quem sobrevier a esta guerra pessoal do insano Coronel, nascida de reação injustificável a uma dor familiar explicável, contará (literalmente) a história da raça suplantada.


É louvável que uma franquia popular de ficção científica, em meio a cenas pungentes de ação, traga à tona questões sociopolíticas pertinentes (saneamento, campos de concentração, racismo, xenofobia) sem escorregar nos clichês políticos de ocasião e sem forçar leituras óbvias. Nas referências (além do cinema clássico) que me parecem francas, uma das sequências (a mim) mais perturbadoras é aquela em que o Coronel, com maldade na alma e carregado de ironia, olhando para o majestoso César, diz que os seus olhos são tão expressivos que até parecem humanos. Um desconcerto que remete às reflexões do filósofo lituano Emmanuel Levinas (1905-1995) sobre o racismo nazista e a negação de humanidade àqueles considerados impuros. Pensando melhor, em toda a trilogia do Planeta dos Macacos cabem as profundas reflexões de Levinas sobre a dor e o terror no Planeta dos Homens!


Enfim..., considerando que este terceiro capítulo mantém a excelência dos capítulos anteriores no roteiro perspicaz que traz respostas criativas às dúvidas dos espectadores, na direção irretocável, no desenvolvimento de personagens cativantes, na coerência narrativa redonda, bem como nos impressionantes efeitos especiais que fazem o espectador se esquecer de que há um grupo de atores (de captura) dando vida (e que vida!) aos expressivos símios; que as performances do elenco de captura (incluindo o Steve Zahn, como o solitário chimpanzé Macaco Mau, e Karin Konoval, reprisando o adorável orangotango Maurice) e do elenco real (incluindo a bela Amiah Miller, no papel da órfã Nova) são um show à parte; que a trama emociona, sem ser piegas e moralista; que há cenas de beleza estonteante e outras de tristeza absurda..., se você gostou mesmo dos dois filmes anteriores, não perca o magnífico desfecho em Planeta dos Macacos: A Guerra.


NOTA: No Portal Motherboard você pode assistir ao impressionante documentário A Ilha dos Macacos, na Libéria (África) e a três curtas de uma série especial criada para sintonizar o espectador mais afoito ou distraído ao universo de O Planeta dos Macacos. As histórias se passam entre o primeiro e o décimo ano em que eclodiu o levante dos macacos e a dizimação da população pela “gripe símia”. Ou seja, entre O Planeta dos Macacos e o O Planeta dos Macacos - O Confronto. São eles: Spread of Simian Flu: Before the Dawn of the Apes (Year 1), com legenda em português, trata da propagação da gripe. O segundo, Struggling to Survive: Before the Dawn of the Apes (Year 5), com legenda em espanhol, fala da luta pela sobrevivência. O terceiro, Story of the Gun: Before the Dawn of the Apes (Year 10), com legenda em espanhol, é sobre uma arma que vai passando de mão em mão até que... Os curtas lembram A Estrada (2009), de John Hillcoat, mas é um trabalho muito bacana.


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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