terça-feira, 18 de abril de 2017

Crítica: A Família Dionti

A Família Dionti
por Joba Tridente

Sinopses e trailers podem ser pegadinhas de mau gosto e ou podem surpreender positivamente a quem costumar dar muita importância para ambos..., já que nem sempre fazem jus ao filme e ou vice-versa e ou vira e desconversa.

Pela sinopse (raramente, só se distraído, vejo trailer) o longa-metragem infantojuvenil A Família Dionti, parece interessante em sua proposta de dialogar com o realismo mágico (ou fantástico), que na literatura brasileira se destacam o mineiro Murilo Rubião e o goiano José J. Veiga: A Família Dionti narra a fantástica história de um pai (Josué) e seus dois filhos, Kelton, de 13 anos, e Serino, de 15, que vivem em um sítio no interior de Minas Gerais. A mãe não mora mais com eles, pois derreteu de amor, evaporou e partiu. Enquanto todos os dias sonha com a volta da mulher a cada chuva que cai, Josué (Antônio Edson) cuida dos filhos com olhar atento, preocupado com a possibilidade de que tenham herdado o dom da mãe. Serino (Bernardo Santos) é seco e chora grãos de areia e Kelton (Murilo Quirino), ao se apaixonar por Sofia (Ana Luiz Marques), uma garota de circo, literalmente se liquefaz de amor.


Promissor, não? Num interior bucólico, lá pra bandas de Dores da Vitória e de Angustura, beirando um atalho mineiro de Guimarães Rosa e uma trilha mato-grossense de Manoel de Barros, a história desta família singular que comunga sonhos molhados e pesadelos secos que, de uma hora pra outra, podem se desmanchar ao vento e ou ao sol, tem início com uma chuva madrugadora que Josué espera que traga de volta a sua amada esposa e mãe dos meninos. E daí, como a imprevisibilidade da chuva, a vida segue lerda, num cotidiano de pouco fazer ou contornar: a rotina na escola “branca” de Kelton; o desejo de Serino por uma bicicleta nova; os afazeres de Josué em casa e na olaria; as histórias de circo da itinerante Sofia; a iminência do inusitado...


É sempre bom quando narrativas diversas desvelam o que inda há de belo e natural, Brasil afora e adentro. Toda via da beleza das locações, no entanto, A Família Dionti (Brasil, Inglaterra, 2015), com roteiro e direção de Alan Minas, exagera um pouco ao trazer toda a lerdeza interior de quem mora no bucólico interior para o melancólico exterior do público da cidade grande. Por vezes a lerdeza do lugarejo atemporal, onde cabe o cotidiano de quem se prende ao passado e de quem almeja um futuro longe dali, é tanta que chega a extrapolar a tela e a dar soninho no espectador mais ansioso.

Num cenário comercial em que raramente um filme brasileiro moldado para o público infantil chega às salas de cinema, há que se saudar o bonito e bem intencionado A Família Dionti, mas há, também, que ressaltar que a premiada produção não está isenta de falhas. A certa altura (quando a história começa a perder o interesse?) alguns escorregões saltam aos olhos e outros passam batidos nos vacilos da direção de arte, da continuidade, da trilha sonora, dos efeitos especiais, da edição, das performances...


A Família Dionti é um filme de recortes, de pequenas cenas (ilustrativas), nem sempre bem costuradas pela linha narrativa. Algumas cenas, na verdade, são totalmente descartáveis. Há as sequências encantadoras, como a do velho e suas abelhas, as interessantes, porém mal resolvidas, como a do mágico, sua mulher e a flor, e ainda as aborrecidas, como as do consultório médico. Na trama leve e pueril, com toques românticos, tem poesia e tem prosa sertanejas, nem sempre no mesmo diálogo. O realismo mágico é servido em diversas plataformas (circo, bonecos, pessoas)..., já o humor, ninguém sabe e ninguém viu, se é que algum dia passou pela região. Não é que a gente do lugar seja triste, não é isso, mas na história não tem passagem (gag ou piada) alguma engraçada ou que provoque algo mais que um sorrisinho amarelo. Nem mineiro da roça é tão contido assim.


Pelo resultado final, considerando que (na minha leitura de adulto) mesmo com cenas curtas a disritmia faz a narrativa claudicar; que o argumento é excelente, mas o roteiro e a direção nem tanto; que os personagens centrais são razoáveis e os coadjuvantes, como o médico charlatão Dr. Waldomiro Carls (Gero Camilo) e a funcionária do Conselho Tutelar, Doroteia (Neila Tavares), são tão caricatos que, com suas caras e bocas e trejeitos, os atores estão mais é para vilões de abomináveis “espetáculos infantis”; que o humor faz uma falta danada..., A Família Dionti é um filme mediano. Se foi premiado duas vezes pelo voto popular em festivais de cinema (Brasília e Lisboa), deve então agradar ao grande público.

Ficou curioso? Arrisque-se! A minha é apenas uma opinião que não precisa coincidir com a sua. E se assistir, traga o seu ponto de vista para cá!


*Joba Tridente: O primeiro filme vi (no cinema) aos 5 anos de idade. Os primeiros vídeo-documentários fiz em 1990. O primeiro curta (Cortejo), em 35mm, realizei em 2008. Voltei a fazer crítica em 2009. Já fui protagonista e coadjuvante de curtas. Mas nada se compara à "traumatizante" e divertida experiência de cientista-figurante (de última hora) no “centro tecnológico” do norte-americano Power Play (Jogo de Poder, 2003), de Joseph Zito, rodado aqui em Curitiba.

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