quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Crítica: A Família Bélier


Assuntos relacionados a algum tipo de deficiência física não são fáceis de se tratar no cinema. Principalmente aqueles baseados e ou inspirados em fatos. Os norte-americanos são hábeis no “gênero”, cujas histórias (melodramáticas) de superação (autoajuda) têm sempre chance no Oscar. Mas os EUA não são os únicos a se debruçarem sobre o tema, os europeus também gostam (não com a mesma frequência americana) de se envolver com a matéria. Pinçando numa lista de excelência, por exemplo, temos o inglês O Homem Elefante (The Elephant Man, 1980), de David Lynch; o irlandês Meu Pé Esquerdo (My Left Foot, 1989), de Jim Sheridan; o espanhol Mar Adentro (2004), de Alejandro Amenábar, o francês O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 2007).


As dificuldades em se trabalhar um tema tão delicado (deficiência física) vão além da realização do filme, que exige muito (laboratório) dos atores, já que, ao chegar aos cinemas, acaba dividindo o público, a crítica e a associação de deficientes. Se por um lado o espectador admira o esforço, o grande desafio que é para um ator (ouvinte) dar vida a um personagem com algum tipo de deficiência, por outro a associação (nunca satisfeita com a performance, ainda que premiada) protesta reivindicando (sempre) o papel para um ator que tenha a deficiência retratada: cegueira, surdez, física etc. A crítica, geralmente, fica na corda bamba..., pende pra cá, pende pra lá, se equilibra na incerteza do que (ou)viu, pra ficar bem na fita. O saco de pancadas da vez, na França, é a simpática comédia romântica francesa A Família Bélier, de Eric Lartigau.

Polêmicas à parte, o filme trata, de forma leve e bem humorada, do comovente drama de uma família rural formada pelo casal de surdos Rodolphe Bélier (François Damiens) e Gigi Bélier (Karin Viard) e seus dois filhos adolescentes: Quentin (Luca Gelberg), que herdou a surdez, e Paula (Louane Emera), que ouve e fala normalmente e lhes serve de mediadora, no relacionamento com a comunidade, e de intérprete, na negociação dos queijos que produzem e vendem na feira local. A bucólica vida dos quatro segue très jolie até a garota se apaixonar, entrar para o coral da escola e o maestro Thomasson (Eric Elmosino, ótimo), surpreso com o potencial de sua voz, a convencer de seguir carreira em Paris.


A Família Bélier, cujo roteiro de Victoria Bedos e Stanilas Carré de Malberg é muito parecido com o do filme alemão Jenseits der Stille (1996), de Caroline Link, traz atores normais como protagonistas. Para o espectador que não conhece a rotina de um deficiente, o trabalho dos atores (que estudaram por seis meses a linguagem dos sinais) parece interessante. No entanto, para os deficientes auditivos e alguns críticos a interpretação é falha e a história superficial. O que não me parece o suficiente para “mordiscar” o pomo da discórdia surda.

Pode não ser um filme perfeito, mas, ainda que previsível, é bom de se ver. O enredo é simples: o retrato de uma família que se diferencia de outras apenas pelo detalhe da deficiência auditiva. O que não quer dizer que seja coitadinha. Muito pelo contrário, os Bélier são totalmente independentes, embora conservem o (mau) hábito de dependência da filha normal, que é o ponto da grande questão da narrativa: a hora (segura) de sair do ninho. Ou, a hora da emancipação de uma família cheia de sonhos, incertezas, birras, medos, que precisa escolher a melhor das alternativas para seguir com a vida campestre e urbana.


A Família Bélier (La Famille Bélier, 2014), que pode ganhar uma versão norte-americana, traz um elenco bem convincente (pra mim!). Há bom ritmo e equilíbrio entre drama e comédia, sem necessariamente ser piegas e hilário. A música adocicada de Michel Sardou é oportuna e, ao menos em dois momentos em que é cantada (ou seria interpretada?), sugiro ter um lencinho de papel à mão. Enfim, uma boa oportunidade para se conhecer o cotidiano de pessoas que têm uma forma inusitada de ouvir e se fazer ouvida no mundo!

Nota: No Portal do MEC há uma lista com sugestões de filmes abrangendo algum tipo de deficiência.

2 comentários:

  1. Boa noite.
    Só uns apontamentos:
    a) O correto é Língua de sinais e não linguagem.
    b) Procure usar o termo surdo e ouvinte. Não use a terminologia "normal" em oposição à surdo.
    Obrigada.

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    Respostas
    1. ..., olá, Unknown, obrigado pela visita, leitura e apontamentos.

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