quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Crítica: A 100 Passos de um Sonho


Cinema é cíclico. Alguns gêneros ou temas sempre teimam em voltar à telona.  Às vezes viram tendência. Às vezes não. Recentemente, três filmes culinários, a serviço da degustação visual e dicas gourmet, botaram a mesa: Comme un chef, de Daniel Cohen, Chef, de Jon Favreau e A 100 Passos de um Sonho, de Lasse Hallström.

A 100 Passos de um Sonho (The Hundred-Foot Journey, 2014) trata da jornada do cozinheiro indiano Hassan Kadam (Manish Dayal) que, após um atentado ao restaurante da família, foi obrigado a deixar a Índia, migrando para a Europa, na companhia do seu pai, Papa (Om Puri), e de três irmãos. Por um incidente do destino, a família acaba se instalando no aprazível vilarejo Saint-Antonin-Noble-Val, no sul da França, onde abrem o restaurante Maison Mumbai, para oferecer aos nacionalistas franceses a mais tradicional comida indiana. O único porém é a concorrência a 100 passos do Mumbai, o requintado Le Saule pleureur, especializado na mais clássica comida francesa e detentor de uma cobiçada estrela do Michelin. A sua proprietária, a arrogante Madame Mallory (Helen Mirren), que sonha com uma segunda estrela, não vê com bons olhos, bons ouvidos e bom nariz a colorida e animada nova vizinhança e suas inebriantes especiarias. Opinião que não é compartilhada pela sua sub chef Margueritte (Charlotte Le Bon).


A 100 Passos de um Sonho é uma comédia com pitadas de drama leve, salpicada de sociabilidade. Adaptada por Steven Knight, do best-seller de Richard C. Morais, é uma história feita para ser degustada sem pressa, ainda que se adivinhe o cardápio. Da entrada à sobremesa, o espectador nem precisa acompanhar o menu para sentar-se à mesa e saborear a trama de odores. A receita do prato principal de cada personagem é óbvia, mas incomoda em nada a digestão neste efervescente banquete de tradições culinárias.


É cada vez mais raro um filme sem clichês. Dizem que todas as histórias já foram contadas e que, portanto, só variam os personagens, independente do gênero cinematográfico. Há controvérsia. A 100 Passos de um Sonho é repleto de clichê. Mas não faz a menor diferença, já que estão perfeitamente integrados à charmosa narrativa, recheada com alguns diálogos picantes e ou agridoce e uma cobertura maravilhosa na fotografia muito bem temperada de Linus Sandgren. Decididamente, fotografar um prato, da colheita dos ingredientes ao serviço final, não é para qualquer um. Mas o desafio maior ficou para o vegetariano Lasse Hallström, que, com muito profissionalismo, dirigiu o filme-cozinha onde a maioria dos pratos é de carnes.


Filmado em locação na França, A 100 Passos de um Sonho é um filme simples, sem grandes novidades, mas envolvente. Assim como o simpático Chef, quebra a rotina da temporada de produções cada vez mais violentas e dá um merecido descanso às retinas. Além de servir de inspiração aos cozinheiros de ocasião. Seus personagens são simpáticos e cativantes. O elenco é excelente. Os novatos Manish Dayal e Charlotte Le Bon surpreendem, mas quem rouba as cenas são os inspiradíssimos veteranos Om Puri e Helen Mirren. Atenção: Não deve ser visto de estômago vazio.

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