segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Crítica: A Viagem



Uma das grandes promessas cinematográficas de 2012, A Viagem, dos irmãos Andy Wachowski e Lana Wachowski, em parceria com Tom Tykwer, escorregou pelo Natal e desembocou no Ano Novo. Feito uma cobra que desliza e se camufla sorrateira por diversos terrenos, A Viagem (Cloud Atlas, Alemanha, EUA, Hong Kong, Cingapura, 2012), literal ou literariamente (espiritualista), é uma viagem alucinante pra lá de escapista. Sem dispensar o fumacê embriagante de Chatrix, digo, Matrix, o filme chega vagando nas atordoantes ondas do Hinduísmo e do Espiritismo, tangenciando sem muita convicção o Karma, o Darma, também presentes no Kardecismo. Esse lampejo espiritual (ou espírita reencanacionista), que não é para qualquer equilibrista de fé bamba, é um tira-gosto especial (nem sempre palatável) que, excessivo, pode ser confundido com filosofia de botequim.

Baseado no romance homônimo de David Mitchell, com roteiro dos próprios diretores, o filme propõe uma viagem por seis histórias que vão se intercalando. A primeira (em 1849) envolve um jovem americano (Jim Sturgess), um escravo Maori (David Gyasi) e um médico (Tom Hanks) num grito de liberdade; a segunda (em 1936) fala do relacionamento profissional entre um jovem músico (Ben Whishaw) e um velho compositor (Jim Broadbent) que buscam a música perfeita; a terceira (em 1973) gira em torno de uma jornalista investigativa (Halle Berry) e os obscuros planos de um executivo do ramo do petróleo (Hugh Grant); a quarta é sobre um editor falido (Jim Broadbent) que sonha com o sucesso; a quinta (em 2144) questiona a importância de um ser (Doona Bae) geneticamente modificado; e a sexta (em 2350?) desvela os horrores apocalípticos na Terra e as observações de uma extraterrestre.


Demasiadamente próxima de um novo (?) gênero (drama espiritualista de aventura e ação), A Viagem é uma ficção científica cuja trama puxa e desfia o fio-matriz do destino e dá um nó na vida do homem civilizado.  Não trata de viagem no tempo, mas de uma viagem maior, envolvendo pessoas encarnadas e reencarnadas que não desistem de buscar por um herói salvador e um deus consolador, pessoas que anseiam por justiça e liberdade ampla, geral e irrestrita, em mundos distópicos.  

Você já deve ter visto argumento parecido até mesmo em animações ousadas (leia-se animes). Assim como no primeiro Matrix, que é uma colcha de retalhos de inumeráveis filmes do gênero, o que não falta em A Viagem são estações referências (Blade Runner, Um Estranho Numa Terra Estranha, No Mundo de 2020, Quinto Elemento, Doctor Who...), ativas conforme o grau de frequência em cinema e biblioteca de cada espectador-leitor.

É um filme juvenil cheio de boas intenções doutrinárias (lei do amor, lei da causa e efeito, lei do retorno). O problema é que “essas boas intenções” saem de lugar nenhum para lugar algum, dando carona a outras máximas pelo caminho. Enfatiza as frases de efeito (sobre perseverança e coragem) e, no entanto, derrapa na fragmentação das histórias curtas que, assim como dão substância à grande narrativa, entram e saem do contexto feito um cometa desgovernado. As mesmas seis histórias que funcionam bem no papel, atravancam a leitura na telona. Quando o público começa a absorver as informações de uma, a sequência já é de outra.


Fugindo à linearidade, os meios podem até justificar o fim anunciado no prólogo, mas é preciosismo gratuito, linguagem oportuna que serve à confusão do espectador e disfarça um conteúdo desinteressante. É mais fácil entender a física quântica do que a conspiração dos bons versus conspiração dos maus que permeia a relação dos personagens. Haja elipse (ou link!) para ressignificar um gesto, uma fala, uma reza. Ao contrário da coerência narrativa de Ang Lee, que acerta na dose reflexão religiosa e estética, em As Aventuras de Pi, o trio de diretores/roteiristas de A Viagem não avança muito além do grande impacto visual. O que não é pouco!

Enfim, como nem todas as histórias são interessantes, o lance é relaxar e curtir a bela paisagem, porque a viagem é longa. Quando se pensa que está chegando lá (seja lá onde for o lá!), um desvio e um retorno para resolver pendência do passado, nas performances irregulares do elenco coringa, composto por grandes nomes e novatos. Todos sujeitos a proporcionar, involuntariamente, um espetáculo à parte, com suas maquiagens que beiram a bizarrice, principalmente as dos coreopeus (mistura de coreano com europeus, a raça que nos suplantará!). A ideia de miscigenação é muito boa, mas o resultado plástico é discutível.

Lá nos idos dos anos 1980, Gilliard cantava: aquela nuvem, lá em cima, que passa, sou eu... Hoje, na plataforma TI, nuvem (ou cloud) é mais que bichinhos de fumaça no céu azul, mas ainda dá asas à imaginação.

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