terça-feira, 14 de agosto de 2012

Crítica: Os Intocáveis


   
Depois do fascinante O Artista (de Michel Hazanavicius, 2011), outro filme francês volta a surpreender o mercado cinematográfico e seus consumidores: Os Intocáveis, uma comédia, levemente dramática, sobre as relações de trabalho e de amizade entre um milionário tetraplégico (branco) e seu pobre assistente (negro).

Os Intocáveis, dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, é inspirado no livro Le second souffle suivi du Diable gardien (1998 e 2004), de Philippe Pozzo di Borgo, onde o autor (milionário e tetraplégico) fala da imprescindível participação do assistente Abdel na superação das suas tragédias pessoais. O livro, lançado no Brasil com o título O Segundo Suspiro (2012), traz em seu novo prefácio o comentário do autor sobre o encontro que teve com os dois cineastas franceses, que o procuraram após assistirem ao documentário À la vie, à la mort (2002), dirigido por Jean-Pierre Devillers: “O filme, de uma hora, retratava o improvável encontro entre o rico tetraplégico privilegiado que sou e o jovem de origem árabe da periferia de Paris, Abdel. Contrariando todas as expectativas, esses dois homens se ajudariam mutuamente durante anos.


Não fosse inspirado em fatos reais, com algumas liberdades pertinentes ao cinema do gênero, Os Intocáveis (Les Intouchables, França, 2012), para a grande maioria, passaria por uma improvável ficção com (inconcebíveis?) toques politicamente incorretos. A princípio, para quem já se acostumou em ver as indefectíveis histórias americanas de superação (física, social, psicológica) e altruísmo exacerbado, que a todo ano chegam aos cinemas e são fortes concorrentes ao Oscar, a produção francesa pode parecer lugar comum, com um clichêzinho aqui e outro acolá. Mas logo se percebe um certo equívoco, já que, ao enfatizar a história do cadeirante Philippe (François Cluzet) e seu conturbado e divertido cuidador Driss (Omar Sy), os diretores (e também roteiristas) buscam o humor em vez de lágrimas, sem com isso tirar a seriedade do tema.  Talvez daí, por conta dessa caixinha de surpresas que é a vida real, o charme que tem conquistado milhões de espectadores.

O filme esboça uma certa ironia (que fica entre deboche e a caricatura) na narrativa e no retrato socioeconômico dos protagonistas, numa França em crise, mas aberta ao “investimento” de risco. As sequências sobre a valorização de uma obra de arte são de pura galhofa. É bom que se diga que o humor francês é bem mais palatável que o inglês (meu favorito), mas o espectador deve ficar atento, porque ele é muito rápido (e perde-se muito na tradução/legenda) e nem sempre muito explícito. Os atores estão ótimos (destaque para Sy) e parecem se divertir com o “antagonismo” de seus personagens que, mesmo buscando cumplicidade, não deixam de alfinetar o ponto de vista sociocultural de um e de outro.


Eric Toledano e Olivier Nakache não adoçam o amargor da vida do saudável negro da periferia parisiense, marginalizado e sem muitas perspectivas, e nem tampouco a do imobilizado milionário, prisioneiro de um passado “feliz”, apenas procuram tornar mais leve (do que é!), aos olhos do público, o drama que os aflige. O filme tem pequenas falhas nas (desinteressantes) histórias paralelas, mas nada que comprometa o seu ritmo ou tire o prazer de assistir a esta deliciosa e boa comédia francesa.

Porque intocáveis? Segundo Philippe Pozzo: “Somos ambos “intocáveis” em diversos aspectos. Abdel, de ascendência do Norte da África, sentiu-se marginalizado na França - tal como a classe dos intocáveis na Índia. Não se pode “tocar” nele sem o risco de levar um soco, e ele corre tão rápido que os tiras - repetindo sua palavra - conseguiram pegá-lo apenas uma vez em sua longa carreira de delinquente. (...) Quanto a mim, atrás dos altos muros que cercam minha mansão em Paris - minha gaiola dourada, como diz Abdel -, abrigado da necessidade graças à minha fortuna, faço parte dos “extraterrestres”; nada pode me atingir. Minha paralisia total e a ausência de sensibilidade me impedem de tocar o que quer que seja; as pessoas evitam até roçar a minha pele, tamanho o medo que lhes causa minha condição física, e ninguém pode me tocar o ombro sem desencadear dores lancinantes. “Intocáveis”, portanto.

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