quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crítica: Viagem 2: A Ilha Misteriosa



Um filme com o título Viagem 2 pressupõe-se um anterior, digamos, Viagem 1, ou apenas Viagem, certo? Bom, mais ou menos. Ou melhor, em se tratando de franquia e condicionamento do público, até que deveria ser assim, mas não é. Também porque antes do Viagem 2 existe apenas o Viagem ao Centro da Terra (Journey to the Center of the Earth), de 2008 e que, de comum, tem a “inspiração” nas obras de Júlio Verne e o ator juvenil Josh Hutcherson. Que viagem, não é?! Ah, e antes que você pergunte, o livro A Ilha Misteriosa também não é a segunda história da série Viagens Extraordinárias de Júlio Verne.

Viagem 2: A Ilha Misteriosa (Journey 2: The Mysterious Island, EUA, 2012), dirigido por Brad Peyton, é mais uma produção levemente inspirada em um ou outro detalhe de A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne (1828 - 1905), publicado em 1874, e que já foi alvo de diversas adaptações e versões. No cinema: 1929: A Ilha Misteriosa (EUA), de Lucien Hubbard; 1951: A Ilha Misteriosa (seriado - EUA), de Spencer Gordon Bennett; 1961: A Ilha Misteriosa (EUA/RU), de Cy Endfield; 1982: A Ilha Misteriosa (Hong Kong), Chang Cheh; 1990: anime Nadia, O Segredo da Água Azul (Japão). Na TV: 1963: A Ilha Misteriosa (França), de Pierre Badel; 1973: A Ilha Misteriosa (França/Espanha), de Juan Antonio Bardem; 2005: A Ilha Misteriosa (EUA), de Russell Mulcahy. Em HQ: 1970/71: Misteriosa Manhã, Tarde e Noite (França), por Jean-Claude Floresta; 1973: A Ilha Misteriosa (Itália), Franco Caprioli; 2010: A Ilha dos Mil Mistérios (França), por Alban Guillemois.


Nesta mais recente versão de A Ilha Misteriosa (Júlio Verne), com citações de As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift)  e Ilha do Tesouro (Robert Louis Stevenson), o jovem Sean (Josh Hutcherson), que era molecote em Viagem ao Centro da Terra, agora é o típico nerd (pelo que diz sobre si mesmo), um rebelde sem causa que não gosta do padrasto Hank (Dwayne Johnson). No entanto, com a ajuda dele consegue decifrar uma mensagem codificada, que acredita ser um SOS enviado pelo seu excêntrico avô Alexander (Michael Caine). O problema é que, pelas coordenadas, a tal mensagem teria vindo de lugar nenhum. Mesmo assim, ele e Hank rumam ao Pacífico Sul, onde contratam um piloto de helicóptero, o malandrão Gabato (Luis Guzmán), e a sua temperamental filha Kailani (Vanessa Hudgens), para levá-los ao local descrito por Verne no livro A Ilha Misteriosa. O grupo acaba acidentalmente descobrindo que o tal inexistente lugar existe, e abriga fauna e flora exóticas.

Viagem 2 é clichê (garoto birrento que não se dá com padrasto camarada, que é fortão, com algum cérebro, e sensível o suficiente para cantar  What a Wonderful World) atrás de efeitos especiais atrás de clichê (garoto riquinho e ansioso quer conquistar garota pobre e independente, cujo pai “herói” é um bobalhão) etc. O desastroso “roteiro” parece um queijo suíço capenga, mas geralmente o público alvo (garotada dos sete aos quinze?) nem nota e ou se preocupa com isso. Afinal, é um filme de aventura e ação (tipo: corre um pouquinho e descansa um pouquinho) para o espectador nada exigente, que se deleita com alguns efeitos bacaninhas, bichinhos fofinhos ou feiosinhos e flores esquisitinhas, enquanto espera pelo óbvio final (?) feliz, se empanturrando de pipoca e refri..


Não custa (re)lembrar ao espectador que não se ligou na sinopse e que espera ver (a qualquer momento) referências à velha história (original) sobre abolicionistas americanos em fuga..., que o enredo é outro. Aqui, os personagens são contemporâneos e se estão fugindo é de suas vidas tediosas. O título da obra de Verne é apenas um chamariz para mais um argumento desperdiçado. O que se vê, entre uma queda e outra e entre uma mensagem edificante e outra, é apenas uma ilha fantasiosa com algum “mistério” sem muita convicção e cinco “sobreviventes” quase enfadonhos (na falta de antagonistas diretos), forçando na simpatia.

Viagem 2: A Ilha Misteriosa é o típico filme-família, linear e cheio de boas intenções altruístas, ao gosto do público-família. Às vezes ridículo, na exploração de gags (velhas) sem graça, e às vezes insensato, ao desperdiçar as poucas boas ideias. É também (inconscientemente?) saudosista ao lembrar aos cinéfilos que o Michael Caine, “amigo” das abelhas assassinas, lá em 1978, quando encarnou o entomologista Brad Crane, na luta contra O Enxame (The Swarm - considerado um dos piores filmes de todos os tempos), de Irwin Allen, pode se sentir (de certa forma) “recompensado” (pelas abelhas) nesta Ilha Misteriosa onde insetos gigantescos são dóceis montarias.


Brad Peyton não conseguiu a melhor atuação do elenco, que merecia uma trama melhor, ficando ali no razoável caras e bocas, em meio a pirotecnia visual. Tecnicamente, quem gostou do 3D de Viagem ao Centro da Terra, possivelmente não terá do que reclamar do 3D deste, também em versão IMAX. Agora é esperar para ver como sairá a sequência da franquia no anunciado (?) Viagem 3: Da Terra à Lua (de 1865).

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