quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Crítica: O Artista



O Artista é um filme para o cinéfilo que, a despeito das invenciones videoclipistas contemporâneas, nunca deixou de acreditar na magia do cinema. Uma história repleta de doçura e de amargura, colhida nas profundezas do pré-som e da pré-cor por quem ama o fazer cinematográfico. Um delicioso melodrama para lembrar (ou conhecer) o cinema em preto e branco e suas histórias singelas (mesmo quando trágicas), já formadoras de plateia nos idos de 1920/30, ao alcance daquele público cuja preguiça mental o faz preferir a dublagem à legenda. Se bem que, vez ou outra, ele será obrigado a ler alguma, tomara que ainda saiba ler. Aliás, é a questão da legenda versus áudio o motivo deste espetáculo. É interessante notar que, enquanto nos anos 20/30 discutia-se a transição entre o cinema mudo e o falado, hoje é CGI e 3D que resultam em acaloradas discussões.

O Artista (The Artist, França, Bélgica, 2011), de Michel Hazanavicius, é uma grande celebração. Uma viagem às incríveis produções cinematográficas dos anos 1920 e 1930, onde o carismático ator George Valentin (Jean Dujardin) faz fama e fortuna com seus personagens charmosos e aventureiros em filmes mudos de grande apelo popular. No entanto, o tempo não para e a modernidade vem atropelando tudo que parece obsoleto. É nesse clima novidadeiro que, após um ocasional empurrãozinho na carreira da iniciante atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo), ele fica sabendo que o Kinografh Studios, para quem trabalha, irá produzir apenas filmes sonoros. Enquanto a determinada garota se entusiasma com a novidade, o inseguro Valentim é contra. Com o orgulho ferido (feito Charles Chaplin na defesa de sua pantomima), o consagrado ator (de pouca fala) passa a questionar o futuro da sétima arte sonora. O seu drama, de uma ternura arrebatadora, arranca risos, suspiros e lágrimas da plateia que aposta no seu talento e num esfuziante recomeço. Afinal, o cinema é feito de fases (e frases de efeito). Ou não ?!


O público mais antigo sabe que nos primórdios do cinema, para facilitar o acompanhamento e a compreensão da história, eram inseridas (entre cenas) cartelas com textos. A chegada do som (que revolucionou a sétima arte), no entanto, apavorou meio mundo artístico, até Charlie Chaplin (1889 - 1977) resistiu a ele por mais de uma década. O temor da classe (e de alguns produtores) era que o cinema sonoro, por conta das risíveis primeiras experiências, destruísse carreiras e estúdios, já que a maioria dos atores não tinha “aquela” voz imaginada pelos espectadores, como se pode ver no genial musical Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952). Por outro lado, dependendo do talento da estrela, a novidade poderia consolidar o ofício, como aconteceu à diva Greta Garbo, indicada ao Oscar pelo desempenho em seu primeiro filme sonoro, Anna Christie (1930), cujo slogan era: Garbo Fala!  

Se antes do som a intenção da trama se bastava nos olhos, no gestual, com o seu advento ela ganhou destaque na voz, e para isso a interpretação era mais do que fundamental. O filme sonoro passou a exigir mais de todos os envolvidos, da concepção à finalização da obra. O irônico é que, para melhorar a qualidade do áudio, surgiu a dublagem (viciando o norte-americano, que não vê filmes estrangeiros por causa das legendas), mas que (de certo modo) acabou facilitando a disseminação do cinema em todo mundo (dublado - com alguma relutância - em outras línguas) e facilitando (depois) a sua exploração pela TV.


O Artista não é um filme de ontem, mas um filme (de hoje) sobre o cinema que se fazia ontem, em posse da alta tecnologia de hoje simulando a de ontem. Tudo nele remete ao passado, da extraordinária performance de Dujardin, com seu sorriso iluminado, à trilha magistral de Ludovic Bource. A nostálgica narrativa de Hazanavicius, que “fala” mais com imagens do que com “palavras”, do amor à arte e do valor da amizade (canina e humana), surpreende pela simplicidade. É impossível ficar alheio à cativante Bérénice Bejo e ao adorável cão (Uggy), parceiro de Valentin, dentro e fora das telas, lembrando a admirável relação de Chaplin com a sua cachorrinha em A Dog's Life (1918). A metalinguagem na “gritante” sequência inicial de lançamento do filme A Russian Affair (tela/plateia/tela/bastidores/tela) com o pedido de “silêncio” (na apreciação de um filme mudo) é mais que perfeita, é genial! Assim como o nocaute de algumas metáforas (principalmente) sobre a ascensão e a queda de astros e estrelas. Mas o ponto alto fica com a antológica sequência de Valentin enlouquecido com a sonoplastia real e incapaz de pedir ajuda. Não me lembro de casamento tão perfeito de áudio-imagem.

Um bom cinéfilo verá na fantástica trama de O Artista as muitas homenagens (conscientes) a clássicos como: Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952), Nasce uma Estrela (A Star Is Born,1954), e a diretores como: Charles Chaplin, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Fritz Lang.  Em um momento muito em especial, Peppy relembra Greta Garbo (1905-1990) em Grand Hotel (1932), com a famosa frase que a marcou pelo resto da vida: I want to be alone! (Eu quero ficar sozinha!). Michel Hazanavicius não é o primeiro e, com certeza, não será o último a homenagear o cinema, preto e branco ou colorido, mudo ou falado. Muitos diretores contemporâneos acreditam na carga dramática do silêncio, apostam na imagem (por mil palavras), na interpretação, na ausência de trilhas, mas não conseguem fugir do pejorativo filme de arte. Infelizmente nem todos tem a boa sorte de juntar qualidade e boca a boca, como O Artista, e traçar um destino premiado rumo ao grande público.


O mundo viu e riu diferente com as pantomimas do francês Jacques Tati (1907 - 1982) e com as paródias do norte-americano Mel Brooks. Ao ironizar (também) a modernidade retrô (e por tabela o público americano?) o ponto vai para Mel Brooks com a sua coloridíssima comédia A Última Loucura de Mel Brooks (Silent Movie, 1976), onde a única fala é um sonoro Non! (Não!), dito pelo mímico francês Marcel Marceau (1923 - 2007), ao ser convidado a estrelar o Silent Movie. Questionado sobre a resposta do artista, Mel responde: Eu não sei. Eu não falo francês! Dificilmente o americano fará filas para ver o filme francês, já que odeia ler legendas, mesmo que mínimas. Pior para os folgados, O Artista é inesquecível!

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